Nudez masculina

O mal-estar
Uma das principais características do homem contemporâneo é que ele se sente extremamente desconfortável diante do corpo do homem contemporâneo.
Não, não como as mulheres que, expostas a séculos de padrões de beleza irreais e uma sociedade que cobra padrões estéticos um tanto quanto opressivos, acabam questionando a própria beleza e se cobrando de maneiras absolutamente injustas. Não, o homem contemporâneo não se sente tão desconfortável diante do próprio corpo – ainda que eu, com essa barriga, provavelmente devesse me sentir.
Na verdade, o homem, quando se sente desconfortável em relação ao corpo do homem, está quase sempre desconfortável com outro homem, não com ele.
Perceba. No banheiro, temos regras implícitas para o uso do mictório – você nunca deve usar aquele ao lado de um que já esteja sendo utilizado se puder usar outro. Temos momentos de desconforto em vestiários, porque um desvio de olhar num momento inadequado – “queria só ver onde tinha deixado minhas meias” – pode gerar momentos constrangedores.
Beijamos no rosto apenas pais e avôs, damos abraços apenas em amigos de longuíssima data, cumprimentando amigos normais com abraços tímidos, colegas com apertos de mão e conhecidos com acenos de cabeça que, quando usados em demasia, parecem um tic nervoso.
Ficamos desconfortáveis ante a visão de caras de sunga branca na praia, damos risadinhas babacas quando os caras do vôlei dão tapinhas uns nas bundas dos outros, tachamos de gay quem usa regatinha.
Isso acontece pelos mais diversos motivos, claro. Vivemos em uma cultura que, por muito tempo, viu demonstrações de afeto e de sentimentos como algo feminino. Homem não chora, homem não abraça e, se abraçar, não coloca a cabeça no ombro do amigo. Isso seria esquisito.
Claro, também vivemos numa sociedade que frequentemente ainda vê a homossexualidade como uma doença que pode ser contraída se você fizer contato visual com um pênis, ficar encarando um tórax ou assistir aquela cena de Crazy Stupid Love em que o Ryan Gosling tira a camisa, não como uma manifestação do desejo sexual do outro.
Aconteceu isso? Cancela o premiére do brasileirão que, de agora em diante, só tem programa de decoração e culinária pra você, cara.

Uma TV Macho, porém com mais sutileza

Como vivemos em uma sociedade em grande parte moldada pelas necessidades masculinas – eu gosto da ideia de uma conspiração feminista subterrânea que algum dia será descoberta por Nicolas Cage, mas ainda nos faltam algumas evidências – esse desconforto do homem com o corpo de outro homem, somado à avidez desse mesmo homem hétero pela visão do corpo feminino, é refletida nos mais diversos aspectos da nossa cultura.
Pense no nosso cinema e televisão, por exemplo. Se numa programação normal, num filme normal, numa série normal, não é uma surpresa nos depararmos com o famoso binômio peitinho-bundinha – que vem sendo constantemente utilizado nos mais diversos contextos e gêneros, desde comédias até dramas, passando por terror e aventura, se mantendo ausente apenas das produções Pixar e Disney.
Com a nudez masculina a sistemática é claramente outra.
Uma interessante compilação que o Luciano me enviou mostra que imagens de caras pelados, seja uma bunda, um tórax ou – choque dos choques – um pênis, aparecem em contextos muito específicos, boa parte deles envolvendo séries de fantasia, gladiadores ou diretamente focadas no público gay. Mesmo nesses contextos, quase sempre numa proporção bem menor do que a boa e velha nudez feminina.

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Manu Bennett em Spartacus
Ou seja, vivemos em um contexto no qual bundas e peitos de garotas aparecem em todos os lugares, mas para topar com a bunda de um cara sem estar assistindo a uma série gay, ela precisa vir acompanhada de um aprofundado contexto histórico ou se passar num universo onde também existem dragões.

Uma campanha por mais bundas de caras?

Antes de alguém vir argumentar que, se quero ver bundas de caras, existem sites pra isso– porque sei que nesse momento tem alguém digitando isso nos comentários – eu queria explicar. Não como defesa mas como contextualização. Eu gosto mais de bundas de garotas e meu histórico do Chrome poderia claramente ilustrar isso, se eu não tivesse passado a usar a aba anônima por questões de bom senso.
A questão é que, assim como queremos ver peitinhos, violência, esportes, homens carecas que destroem suas famílias na busca ensandecida por poder no mundo do narcotráfico, na televisão e isso diz muito sobre quem somos, as coisas que omitimos ou evitamos também refletem diretamente o estágio no qual estamos enquanto sociedade.
O fato de que não sabemos lidar com a nudez masculina, mas exploramos em profusão a nudez feminina, fala muito sobre nosso machismo.
Fala sobre a forma como exploramos a mulher, sobre a nossa percepção de que o sexo delas pode ser usado para a diversão do homem – em programas que são considerados “normais” –  e sobre como nós achamos que a transação não existe no sentido contrário. Fala também sobre como das vezes que consideramos a sua existência, pensamos que não se trata de um programa normal, mas de um programa “de mulher” ou “gay.
Christopher Meloni e Brian Bloom em Oz
Christopher Meloni e Brian Bloom em Oz
Garotas se pegam em qualquer filme censura 14 anos, mas quando anunciam que dois caras vão se beijar numa novela das 8 – que na verdade passa às dez –, o carro do bom senso vira o transformer da insanidade. As associações de proteção a família se manifestam como se esse evento fosse rasgar o tecido da realidade tal qual uma toalha de mesa usada numa cantina italiana.
Estou dizendo que num mundo com mais nudez masculina no cinema e na TV nós seríamos menos machistas, menos homofóbicos, menos intolerantes, menos autocentrados? Não posso garantir, não tenho certeza.
Mas se eu fizesse um comentário desses, acho que o pessoal da pelada iria me olhar muito esquisito.
Acredito sinceramente que da mesma maneira que a ficção reflete a realidade, talvez ela seja uma boa ferramenta para que passemos a tratar com mais familiaridade as coisas que ainda nos confundem e desconcertam, sejam essas coisas traseiros de caras ou beijos gays.
Ao menos pra gente poder usar o mictório de forma mais confortável, sem ninguém olhando pra ninguém daquele jeito desconfiado.
Nota do editor: por algum problema no facebook, os likes desse post sumiram. Quando isso aconteceu, já eram mais de 20.000. Texto representativo, de uma conversa necessária.
João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista. Turn ons: quadrinhos, ficção científica, humor de borda e pão de fôrma com requeijão. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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