Papo de homem

Como posso estar errado se sou justo? Uma visão do justiçamento no Brasil
Caro leitor, antes que se apresse em crer que este tema não é de sua conta por pensar que “já que não sou bandido e não bato em gente na rua, não preciso ler o texto”, peço que se atente à seguinte situação:
Imagine que, em um dia inspirado, você resolve engolir o cansaço e aderir às recomendações da sua nutricionista chata praticando a tão benéfica caminhada. Melhor, você resolve fazer uma corrida e veste sua armadura completa: o tênis adequado, o shorts, a camiseta própria para sua atividade e, para completar, seus fones de ouvido, a fim de curtir uma musiquinha estimulante para a admirável força de vontade.
Lá vão você e seus pensamentos rua afora. Tudo é lindo, até que algum transeunte grita as palavras “pega Ladrão!”.

Não que você tenha se importado — às vezes nem ouviu — mas, de repente, sente uma dor lancinante e não é aquela clássica causada pelo seu ácido lático informando que suas pernas não foram bem treinadas para aquela atividade física. Acontece que um grupo de aproximadamente vinte ou trinta pessoas passou a lhe agredir ferozmente, como se você fosse o mal encarnado, um monstro, uma verdadeira ameaça pública.
Em minutos lhe acorrentam a um poste, os socos e pontapés ainda não cessaram, mas em meio à confusão ouve-se um sujeito dizer: “pega lá o facão”. Você enxerga o fim da sua vida, a morte bufa em seu cangote, sendo que tudo que você queria era manter a forma.
Depois dizem que o sedentarismo que é perigoso.
Eis que surge uma luz em meio ao caos: um caminhão dos bombeiros dispersa a multidão cega e furiosa. Mas antes que você possa ser devidamente salvo surge a pergunta: será que você é quem diz ser? Como provar que não merece o que está sofrendo?
Foi esta a situação do professor de História André Luiz Ribeiro, que teve de dar uma aula de Revolução Francesa para que os bombeiros garantissem seu salvamento e o encaminhassem para a delegacia mais próxima. O dono do bar, estabelecimento que havia sido assaltado no exato momento da corrida de André, deu depoimento alegando que “se ele não devia nada, vai dar uma mancada dessas de estar correndo no meio dos bandidos na hora do assalto?”.
Justo.
Afinal, o acaso é este fenômeno firme e seguro capaz de regular a realidade, tão livre de erros que é. André foi preso pelo “crime” em flagrante e liberado tempos depois para voltar a exercer a profissão que ama em uma escola pública de São Paulo.
A situação me chocou por dois motivos principais: devido á arbitrariedade do ato e por ter tido a oportunidade de conhecer o André anos atrás, nos tempos da universidade. Não éramos próximos, mas tínhamos amigos em comum e o perfil era o de um cara dedicado, esforçado e muito honesto em tudo que fez.
Comecei então a me perguntar então o que havia ocorrido naquele dia. O nome que encontrei para esta e outras atitudes parecidas, que vem sendo alvo de sucessivas discussões, paixões e dogmatismos políticos, foi “justiçamento”.
André: julgado, culpado e punido por correr na rua em horário inadequado. Esses delinquentes...
André: julgado, culpado e punido por correr na rua em horário inadequado. Esses delinquentes…

Justiçamento: o que é? Onde surgiu? Como vive? Do que se alimenta?

O termo “justiçamento” já foi usado em diversos períodos da história. No Brasil, foi constante na Ditadura Militar, quando habitava o linguajar dos guerrilheiros. Porém, da maneira como tem sido utilizado atualmente no Brasil, faz referência a uma agressão coletiva, por vezes com intenção de levar a vítima a óbito (linchamento) e com fins de punir um possível transgressor da lei, seja este um assaltante, estuprador ou praticante de qualquer outro crime considerado revoltante pela população.
Portanto, é um grupo que resolve fazer “justiça com as próprias mãos”, motivado por uma falta de confiança no sistema penal vigente. O ato não possui punição clara prevista em lei. Existe, apenas, uma insinuação ao chamado “crime coletivo”, que possui um atenuante no Art. 65: caso o agente tenha cometido o crime sob a influência de multidão em tumulto.
Há um ponto fundamental para a compreensão da questão: se estas pessoas estão fazendo “justiça” por conta dos crimes possivelmente cometidos contra alguém, qual é o conceito de justiça em que eles estão embasados? Não se parece com o da legislação federal que busca a readaptação e reintegração dos indivíduos na sociedade. Pelo contrário, agem como se idealizassem a eficácia da velha máxima do Código de Hamurabi: a chamada lei de talião, em que o que vale é o “olho por olho, dente por dente”.
Como tudo na história, estas elaborações tiveram seu lugar, contexto e importância bem definidos em seu período e para aquele momento. Contudo, parece haver uma tendência a se resgatar exemplos do passado e inseri-los alienadamente no presente, dando-lhes nova roupagem. Agora, em uma espécie de lei do talião versão 2014: “bandido bom é bandido morto”.
Isso habita o imaginário de pessoas diversas, vindas de camadas sociais distintas e defensores das mais variadas preferências políticas. Mas por quê?
Primeiro pelo descrédito da população para com o sistema penal e carcerário vigente. Em diversos âmbitos, o que se vê no judiciário brasileiro é um mar de ineficácia, corrupção e impunidade. Só peço ao caro leitor que se poupe ao levantar bandeiras ou bradar que “isso é culpa da Dilma, do PT, do Lula e do povo burro que vota neles”; ou que “é o legado dos últimos governos de direita que afundaram o país”.
O problema é histórico, de tempos em que as linhas políticas ainda nem começavam com “P alguma coisa”. Surge como fruto de toda uma estrutura frágil e arcaica que se instalou, da qual não pudemos ainda nos livrar, permitindo que se enraíze cada vez mais fundo em nosso país, como o faz em diversos outros. Já Sérgio Buarque e até Roberto DaMatta apontaram para uma tendência ao nosso povo usar o “jeitinho” em esferas que deveriam ser impessoais, manchando nossas instituições com a lógica dos favores que continue deturpando muitas de nossas instituições.
Isso, entretanto, não explica tudo e, neste caso, justifica nada. 
Já que você é cega deixa eu te dar uma mãozinha...
Já que você é cega deixa eu te dar uma mãozinha…
Para além do Estado, outro ponto é a parte humana da coisa toda. Conheço bem o sentimento de impotência que surge ao ver bens que você suou pra conseguir sendo tomados por um estranho qualquer ou, ainda pior, assistir quase inerte enquanto pessoas que você ama sofrem abusos e escoriações sem qualquer possibilidade de prestar algum auxílio.
O que fica é o medo de que isto volte a ocorrer, além de um profundo ódio para com todos que possibilitaram o ocorrido: do bandido ao sistema que, de alguma forma, permitiu sua existência e interferência em nossas vidas. A vontade de vingança passa a habitar nossa mente, instintivamente.
No entanto, não somos seres irracionais ou, pelo menos, não deveríamos. Agir de maneira instintiva nunca resulta em bons atos. Um exemplo é do homem traído, cego por conta de seu ego ferido, optando por matar a mulher, culpada que certamente foi de não ser feliz com ele. Convido o leitor a pensar em todas as vezes que se arrependeu de algum ato. Na maioria delas, certamente, o ocorrido tomou lugar em momentos de pouca clareza de ideias, com a visão de mundo ofuscada por algum sentimento negativo.
E esse é o problema.
Historicamente, o quando percebemos o quanto os interesses humanos são volúveis às fortes emoções e quanto isto impedia a vida harmoniosa em sociedade, fomos deixando o chamado Estado de Natureza para buscar, através do contrato social, o Estado de Direito. Construímos toda uma máquina administrativa e elaboramos códigos de leis para que pudéssemos deixar um ambiente de constantes lutas a fim de construir outro, mais seguro.
Contudo, o cenário sombrio do sistema judiciário brasileiro parece, a algumas pessoas, justificativa válida para quebrar este “contrato”, fazendo “justiça com as próprias mãos”. Tal atitude representa a volta à barbárie, à miséria da alma humana, à estaca zero.
Para que melhor possamos pensar sobre os casos de “justiçamento” os dividi em duas situações: quando ele é “justo” e quando ele não é. A começar pelo segundo.

Quando o “justiçamento” não é “justo”

Vamos aqui adotar a lógica dos “justiceiros” em seu conceito de justiça. Dois casos vêm à mente quando o assunto é um “erro de julgamento” por parte destes grupos.
O primeiro é o de uma mulher no Guarujá que, por ser parecida com um retrato falado, divulgado por uma página do Facebook, foi espancada até a morte por uma população que acreditava estar limpando o mundo de seus crimes: que envolviam magia negra com criancinhas.
Juro que no exato momento em que li isso corri no calendário e, para meu desespero, a Idade Média já tinha passado. Perdoem o erro, é que pra mim uma mulher ser morta após uma acusação aleatória de bruxaria por um grupo de heróis justiceiros é roteiro de filme medieval. Só faltou o falso julgamento perante o Tribunal do Santo Ofício, que até deve ter ocorrido dentro das mentes que agrediam a “bruxa”.
Os tais agressores fizeram questão de filmar as cenas de violência, tão certos estavam da nobreza de seus atos. Alguém que tenha visto as imagens poderá perceber o quanto estas são uma manifestação do mais sujo que há em um ser humano: o ódio pelo outro, movido por puro desconhecimento.
Justiçamento no século XII. Quer dizer, XXI.
Justiçamento no século XII. Quer dizer, XXI.
Outro, mais recente, é o já citado caso do André.
Agora imaginemos o seguinte: sou eu, cidadão que tomei parte neste último ato, ou em qualquer outro do gênero. O fiz na certeza de estar tomando parte em um “justiçamento”, ajudando na construção de uma sociedade limpa das escórias como ladrões, bruxas ou sequestradores. Minha maneira de mudar o mundo sujo é dando-lhe mais de sua própria sujeira pela goela abaixo.
Sou um cavaleiro da verdade, aplicador de leis. Ao chegar em casa, satisfeito por minha “pequena ação”, que de certo vai ajudar a melhorar a realidade a meu redor, me deparo com imagens fortes. É um grupo de pessoas agredindo o que parece um rapaz. Seguido ao vídeo, há a entrevista da vítima: um professor, trajando roupas típicas da prática esportiva, desarmado e incapaz de se defender.
Você entra em choque.
Na reprise das imagens ouve-se um clamor por piedade. O que parecia um ato de nobreza, agora, é pura violência arbitrária. O que você faria?
Ora, na lógica do “justiçamento”, faria o justo, um justiceiro que sou. Iria até a polícia, junto com todos os que agrediram erroneamente o rapaz, para que ele pudesse um a um lhe desferir os mesmos golpes que você infringiu no dia anterior. Afinal, o único criminoso agressor da história inteira é você. Ou não?
É evidente que, neste exato momento, os moradores do Guarujá — protagonistas do linchamento à “bruxa” — estão se despedindo de seus familiares e ficarão no aguardo de terem suas casas igualmente invadidas a fim de serem acorrentados, arrastados, chutados e escoriados até sua morte, rumo ao céu dos justos. Afinal, quem mata um inocente é um assassino que merece ser morto.
Para surpresa geral, até o presente momento, ninguém se dispôs a isso. Seria cômico, se não fosse trágico. O interessante é perceber que há os defensores da inocência dos agressores, pois tudo não passou de um erro humano. Os principais defensores desta tese são os próprios envolvidos.
Este é o pensamento que motiva aqueles homens e mulheres a não se apresentarem na delegacia ou se candidatarem a uma morte igualmente dolorosa. Alguns ainda poderão afirmar, do alto de seus ideais, que estes erros não mostram o todo. Que são exceções.

Pois bem, antes de analisarmos os casos “justos”, façamos uma rápida incursão a um tema que auxiliará na compreensão de tais casos.

As motivações de um crime

Não sou psicólogo, nem perito, muito menos policial especializado. O que tenho a dizer é da minha experiência como historiador e enquanto professor de escola pública.
No começo da minha carreira, lecionei em periferias de cidades pequenas. Mesmo ali, pude perceber algo que me chamou a atenção: os alunos viviam em um mundo paralelo ao meu. A realidade era a mesma, mas forma de interpretá-la é que mudava. Deparei-me com adolescentes que não possuíam motivação a estudar e nada os incentivava de verdade.
Os tipos não eram unanimidade, mas toda escola tinha alguns. Comecei a perceber, então, certo padrão em casos de meninos que se envolviam com o outro lado da lei: as crianças crescem com uma autoestima baixa, por acreditarem que não tem recursos, monetários ou intelectuais, de competir no mundo que conhecemos. No entanto, são também alvo das propagandas e tornam-se tão iludidas e mistificadas quanto nós por produtos da moda. Aderem à crença vigente de que objetivando seus desejos é que, enfim, poderão ser respeitadas e felizes.
Passam a buscar formas de moldar a realidade ao seu redor, pondo fim à sua condição marginalizada. Neste contexto surge o crime, seja com um “emprego” no tráfico ou assaltos a pessoas que tem os tais produtos. Na mente daquelas crianças, e de alguns pais, eles estão à margem do judiciário, um lugar onde o Estado não chega.
Quem cuida da segurança, dá abrigo, dá emprego, oportunidades e uma chance de “ascensão” é o tráfico, o crime, que deixa de ser vilão para se tornar herói. Os que optam por este caminho são muitas vezes louvados pelos locais, desejados pelas mulheres, respeitados em sua autoridade É a mesma construção social que aplicamos a empresários e artistas de fama,apenas invertida e distorcida.
PCC: sinônimo de paz, justiça e liberdade
PCC: sinônimo de paz, justiça e liberdade
Há também os que, de tão perdidos nestas realidades paralelas, preferem se isolar por meio do uso de drogas pesadas como o crack. Tornam-se verdadeiros zumbis em busca de mais uma dose de esquecimento, relaxamento e alienação. Para sustentar o vício, praticam roubos e furtos. Se pudessem livrar-se de sua condição, atingir novamente um nível humano de consciência, o fariam. Mas não é o caso.
Há de se contar também a mais clássica e velha motivação para o crime: a necessidade de sustentar uma família que surgiu sem planejamento. Ainda existe uma parcela populacional incapaz de dar pleno sustento aos seus e que busca uma saída às margens da lei.
É a distinção clara de duas ilusões coletivas, dois mundos distintos: um, mais comum, sob a batuta da lei vigente, onde trabalhamos em empregos “decentes” e ralamos horas por dia a fim de comprar bens que nos agradam e protegidos pela vigilância policial, nossa defensora da ordem; e outro onde o “criminoso” é quem defende a população, reflexo da impossibilidade, socialmente construída, de inclusão destes seres na ordem social, gerando um sentimento de marginalização.
Referenciado por este último, o sujeito acredita que é perfeitamente aceitável roubar algo de alguém quem tem mais capital econômico, privilegiado que foi por sua condição de “playboy”. Uma visão tão preconceituosa e limitante quanto qualquer outra.
Ambos os “mundos” possuem personagens extremistas, insensíveis às necessidades do “opositor”, por termos criado um muro de ignorância que nos separa e nos leva a um ódio insensato. Não estou, com isso, defendendo que os crimes devam ser louvados, ou ainda que devam ser esquecidos e ignorados. Tem de haver punição aos infratores da lei, desde que não seja motivada por rancor, medo e ódio.
Minha intenção com esta pequena elaboração é demonstrar um fato: tem muito bandido por aí com todo um embasamento ideológico para suas ações.
Link YouTube | O tom lúdico por vezes esconde a realidade por trás da fala… Já Freud dizia que “os neuróticos adoecem por conta dos mesmos problemas que nós, os “sãos”, também lutamos”

Com isso em mente, podemos passar para o segundo tipo de casos…

Quando o “justiçamento” é “justo”

Tomo como exemplo de “justiçamento justo” o do menor de idade, com passagens pela polícia por furto e roubo, que foi atado a determinado poste no Aterro do Flamengo por um grupo de justiceiros. Ora, finalmente um caso justificado. Tão corretos estavam os agressores em seu ato que o jovem, depois de liberto, voltou a cometer o mesmo crime.
Em resumo, o sujeito praticou um crime, foi punido e agredido com o fim de aprender que estava errado e, mesmo tendo sido “educado”, voltou a cometê-lo. Por quê? Muito pelas motivações que fiz questão de apresentar no tópico anterior. O crime tem um pano de fundo ideológico. Aquele jovem não conhece outra realidade que não essa, é incapaz de se imaginar conseguindo as coisas que quer em outro contexto que não este. Então de que adiantou toda a agressão?
A situação expõe a falta de entendimento das motivações de um crime, típica dos “justiceiros”. Ao expor esta opinião a um conhecido, ele prontamente respondeu que o fato ocorrido endossa o argumento a favor do “justiçamento”: “se o garoto apanhou e não aprendeu, que apanhe mais, se não aprender que morra! Quem tem dó do lobo sacrifica a ovelha!”.
A elaboração me chocou pela completa falta de percepção da lógica. Ok, suponhamos então que o garoto fosse tido como um sujeito essencialmente mau. Assim, o colocando no papel de vilão, poderíamos justificar sua morte, afinal para ele não há outra solução. Pegam o rapaz na rua e o matam. A morte do rapaz não trouxe de volta os itens ou vidas perdidos por ninguém, não tirou das ruas nenhum de seus “amigos”, que seguem no mundo do crime a despeito de todas as perdas.
Qual o sentido então?
A resposta foi: “tem que deixar o bandido com medo, os fazer pensarem duas vezes antes de assaltarem alguém”. O sentido, então, é causar medo. Não me lembro de quando este sentimento trouxe algo de benéfico, mas uma pergunta me acometeu. Em quem estamos gerando o tal medo e o que estas pessoas vão fazer com isso?

 Medo em quem?

O que pude perceber na maioria dos casos noticiados em toda a mídia é que os “criminosos” agredidos — fossem culpados ou não — eram pessoas desarmadas e desacompanhadas. Então, se fosse só por esse argumento a coisa toda já perdeu a suposta “nobreza”. É fácil para os “justiceiros” chutarem “peixe pequeno”. Não há bravura alguma em um grupo de dezenas de pessoas “defender” alguém que foi assaltado por um único ladrão que não portava arma. Pelo contrário, tudo que vejo é um mar de ignorância: pessoas comuns, que agridem algo além do ser humano que está ali, quase invisível.
O que elas massacram são seus próprios medos e frustrações, personificados em um sujeito atirado no chão. Isso não é “fazer justiça” de forma nenhuma. Falhei em encontrar casos de “justiçamento” contra chefes do tráfico ou líderes de facções, armados de fuzis, que arbitrariamente determinam quem vive ou morre, conforme sua alçada de poder.
Ou, ainda, tendo como alvo criminosos de “costas quentes”, pairando quase acima da lei, como Pimenta Neves, réu confesso de assassinato, que levou onze anos pra ser preso. Quis usar estes exemplos práticos não para incitar novos atos, mas com o intuito de dizer que não se pacifica coisa alguma punindo exageradamente ladrões de pirulito, por mais “justo” que isso pareça ser.
Que esta falácia não mais habite nossas mentes e argumentações.
“As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo, para não enfrentar a própria alma” C.G. Jung
“As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo, para não enfrentar a própria alma” C.G. Jung
Aliás, a barbárie até pode até mudar uma realidade. Costumo comparar a estrutura criminal ás bactérias que habitam o mundo e, ocasionalmente, nosso organismo. Para combatê-las criamos antibióticos cada vez mais potentes.
Até aí tudo bem.
Mas o uso irrestrito destes medicamentos tem criado nos cientistas a sensação de que, em um futuro não tão distante, tenhamos superdoenças e epidemias fora do controle, causadas por mutações das tais bactérias. Mas o que isso teria a ver com o “justiçamento”?
O mundo do crime, tal qual o das bactérias, se molda, principalmente se o “remédio” for ministrado desordenadamente e de forma indiscriminada. Talvez, nos primeiros casos, o medo suscitado pela presença de “justiceiros” possa gerar uma sensação de segurança.
Muitos criminosos podem abandonar os locais “protegidos” por estes grupos e isto soar como uma vitória de seus ideais. Mas quando se fala de crime, violência arbitrária não trará paz, apenas mais do mesmo. O que parece mais provável? Que os bandidos deixem suas ideologias de lado por conta do medo ou que tentem combatê-lo de igual pra igual?

Os resultados do medo

Não vejo o medo inibindo criminosos, e sim um futuro ainda mais sombrio.
Lembremos-nos do assaltante que, por algum motivo, acaba levando sua vítima a óbito. Estes sujeitos são, justamente, os que se encontram mais amedrontados de serem pegos em flagrante ou vítimas de um civil armado. O “justiçamento” entra, neste contexto, como um ótimo incentivo a este comportamento. Portanto, o que me parece mais provável é uma movimentação dos criminosos em perceber que tais atos são voltados contra infratores desarmados e desacompanhados, passando a não mais cometer este “erro”.
A procura dos viciados — seja em drogas ilícitas, status social ou qualidade material de vida — por algo que os alivie de sua dor existencial não tende a cessar, e sim a adequar-se ao cenário. Com um aumento da procura por armas no mercado negro, este, como qualquer comércio, tenderá a preços mais razoáveis, possibilitando um numero cada vez maior de brasileiros realizarem o sonho da arma própria.
“Toma. Agora justiceiro nenhum vai mexer contigo”
“Toma. Agora justiceiro nenhum vai mexer contigo”
O medo, a vingança, o ódio e a violência não trazem segurança, apenas se retroalimentam. O que os defensores das agressões não conseguem enxergar é que a ineficácia da “justiça com as próprias mãos” é tanta, ou até maior, que a da justiça comum. Um aumento dos “justiçamentos” geraria medo em criminosos já afogados nas suas próprias ideologias, acarretando no uso cada vez mais letal da violência, por ambas as partes. Estaríamos à beira de uma guerra civil
Há uma frase que, de tão simples e clichê, acabou sendo ignorada. Entretanto, revela em si mesma uma grande sabedoria: lembremos que violência – principalmente a arbitrária - só gera mais violência.
Não é o caso de pregar uma cultura de impunidade, prender números irrisórios de infratores, muito menos devolver um sujeito que não se adéqua às normas de volta a sociedade por mera crença de que ele, no fundo, seja bonzinho. A discussão aqui não é essa, porque seria necessário envolver todos os tipos de pessoa, até as que não conseguem se identificar com a dor do outro por uma propensão psicológica, biológica e/ou social.
A questão é que existem muitas nuances no crime totalmente ignoradas pela população comum, destreinada a lidar com esse tipo de situação. É preciso combater, corrigir atos criminosos, e não idealizar “vilões”, personificando-os em infratores de rua. A violência dos “justiçamentos” não possui sentido prático que justifique sua existência. É apenas a cegueira, mais típica de quem busca uma vingança pessoal que dos seres aspirante á mudanças de realidades sociais.
Mas então como proceder?
Não tenho uma resposta prática que possa ir além do ponto comum. Me ocorrem coisas como o maior patrulhamento das ruas, treinamento policial mais adequado, medidas socioeconômicas de inclusão e educação etc. Coisas um tanto inatingíveis no atual momento do país. Mas me arrisco a propor uma reflexão.

O que podemos aprender com a cultura de paz

Exemplos de sequelas da violência estão espalhados por todos os cantos do mundo. Em um caso histórico, mas de episódios recentes, Israel e Palestina voltaram a se agredir, exatamente por não enxergarem uns aos outros e responder fogo com mais fogo. Para além de suas motivações, menos ou mais justas, ambas as partes acreditam sinceramente que esta postura conflituosa irá gerar, em algum momento, paz.
Construída sobre cadáveres de civis, cimentada em vinganças sucessivas e conquistada com a destruição total de um dos povos. Estas populações têm acreditado na eficiência de seus próprios “justiçamentos” há quase um século, sem terem tido resultados positivos desde então.
Por outro lado, Mandela e Gandhi, são exemplos clássicos de como a compaixão e a ação lúcida, não mais pautada em vingança ou ódio, podem ser meios de conseguir avanços muito mais significativos. Principalmente no caso do “Madiba”. Tendo sido ele e os seus correlatos vítimas da violência, optou por não “justiçar” os crimes que lhe foram acometidos. Assim, pôde acender uma luz em meio a um ambiente escurecido pela ignorância.
Não que tenha pregado impunidade aos atos revoltosos que ocorreram, apenas percebeu que dar a vingança a um povo oprimido, apesar de “justo”, criaria uma mudança nos papeis sociais de “vítima e algoz”, mas não o fim do sistema. Compreendeu a tempo que o racismo também se retroalimenta, os mesmos meios produziriam os mesmos resultados. Por agir com sobriedade, evitou uma futura onda de “justiçamento” por parte dos brancos, o que colocaria fim a toda uma sonhada estabilidade e aos ideais de igualdade que tanto buscou.
Claro que nem tudo são flores. O próprio Gandhi foi vitima da violência contra a qual lutou. Mas me parece muito mais razoável buscar paz com lucidez, do que com cegueira e ódio. Estas são as conclusões, mas antes de abrir aos comentários gostaria de propor que pensássemos em duas coisas:
As “sequelas” de se combater as sombras do ódio com lucidez...
As “sequelas” de se combater as sombras do ódio com lucidez…
Primeiro, será que só porque estamos de posse da razão, temos o direito de agir inconsequentemente? E, por fim, se a causa última de todos os “justiçamentos” for trazer a paz de volta — seja à uma comunidade ou seres humanos atormentados por episódios de violência –, porque não refletir sobre o ensinamento de Sua Santidade, o 14º Dalai Lama, em que ele propõe que se queremos ver alguma mudança, ela necessariamente começa por nós?
Fica o pensamento e um aforismo, de mesma autoria, que demonstra o que seria uma abordagem mais lúcida a todo este cenário que nos encontramos:
“A Paz Mundial deve se desenvolver a partir da paz interior. Paz não significa ausência de violência. Paz é a manifestação da compaixão humana.”
– Dalai Lama
Renan Russo

Professor, formado em história e mestrando na área de história política. Infelizmente, ainda não consegue descrever sucintamente todo o resto de si mesmo, devido ao velho hábito de falar demais. No entanto, promete continuar tentando e, quando conseguir, vir correndo contar.