Fuxico, que palavra pobre!




Depois de muito além
Acho que confundi o tempo porque muito pouco liguei para ele. Aquele que sai por aí em busca de limites nunca vai achar que encontrou o seu. Foi assim mesmo. Muitas vezes, acordei de uma canseira exagerada, e as dores espalhadas pelo corpo faziam cobranças... E aí, levantava com preguiça, mas as promessas do novo lugar davam forças e ânimo, e logo fazia delas um bálsamo perfumado ou uma massagem com jeito e logo estava de pé. Em alguns momentos, nem lembrava de onde vinha, onde estava. Só sabia que iria encontrar o que buscava em forma de imagens que me esperaram uma vida inteira e aquele seria o momento do nosso encontro. No ritual de arrumar as mochilas de bagagem pouca, cuidar das lentes, da carga das baterias e das câmaras fiéis, encontrava espaço para lembrar das pessoas queridas e escolher as melhores saudades para sentir. "Ah, se vocês estivessem aqui...!" E ia embora de novo para chegar outra vez lá onde a paisagem fazia suas curvas no meio de cores especiais ou em mil tons de cinza de sensualidade especial. Os rostos que "sequestrava" numa fração de segundo muitas vezes sorriam para mim, aquiesciam e até pediam para fazer uma foto de lembrança. Era sempre muito boa e divertida a sensação de haver ficado, eu também, como recordação para pessoas que possivelmente nunca voltarei a encontrar outra vez. Até parece que foi ontem que deixei o Brasil para trás e saí sem destino. Haviam mil horizontes, mil entradas, mil montanhas, vales e paisagens deslumbrantes... Em várias delas quase morri de frio, nas armadilhas das curvas sem proteção no alto de montanhas selvagens, ou porque na avaliação de talibãs em meio a uma tempestade de neve eu não valia um tiro sem motivo. A sensação de só saber disso depois dá um frio cortante que percorre o corpo sobrevivente sem saber do que podia ter acontecido. Sobreviver sem ter vivido a ameaça não tem graça. E seguia adiante e ria das loucuras procuradas. Um dia, no meio da madrugada, acordei sem saber onde estava, procurando mais calor debaixo de uma coberta pouca para o meu tamanho por conta do frio que entrava curioso pelas frestas e se instalava ao meu redor. Tremer de frio não é bom, não é agradável, não tem graça. A saída era esperar que o sol tivesse pressa e viesse em meu socorro. Foi sentindo frio assim que deixei muita coisa "pra lá"; que refleti sobre os últimos anos da minha vida; sobre o que podia ter feito ou deixado de fazer, mas em nenhum momento provei de arrependimentos maiores que as culpas de tê-los provocado. A vida só tem sentido quando permite erros. Corrigir as rotas permite fazer curvas, desviar das pedras, descobrir atalhos e evitar abismos. Ou cair neles. E depois fazer todo um caminho de volta até o topo. Fiz isso. Fez-me valorizar as escolhas, com poucas exceções. Deixei mágoas em meio às flores selvagens de lugares inesquecíveis. Descobri mil motivos para perdoar as maldades alheias e vi quão pequenas são as pessoas pobres de espírito que se alimentam de fuxico. "Fuxico!" Que palavra pobre! Do alto dessas montanhas as pessoas que vivem disso parecem muito pequenas. Deixei de me preocupar com os nomes dos lugares aonde queria chegar e dos lugares por onde andei. Apenas vivi suas cores, seus sons e seus cheiros. As montanhas me fizeram bem à alma, ao espírito. Menos ao joelho que machuquei... Já passou. Quando me dei conta já estava ficando "tarde" e era hora de fazer a curva, voltar ao ponto de início. Uma viagem nunca termina. Quando ela acaba é apenas o momento de começar outra porque existe muito mais depois de muito além...

por A. Capibaribe Neto


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