O grande mico da Academia

[...] Brasileira de Letras, bem entendido. Em abril, como se em porre coletivo, a Academia Brasileira de Letras, leia-se Machado de Assis como ícone, prestou uma "singela" homenagem, sabe-se lá por ideia de quem, ao jogador de futebol Ronaldinho Gaúcho. O mesmo Ronaldinho que já não é mais aquele, mas que dá suas festinhas, com direito a batucada e tudo, noite adentro no edifício onde mora, sem ligar a mínima para o desassossego dos demais condôminos. Ronaldinho Gaúcho nunca leu um livro sequer, mas, diga-se de passagem, chegou a pedir aos imortais presentes naquele fatídico abril, uma sugestão para ler algum, num tom de galhofa, bem entendido, como pedia a ocasião. Ronaldinho Gaúcho pode ser imortal enquanto ainda perduram seus dribles cansados, seus pênaltis perdidos, sua ginga ultrapassada, isso sem desmerecer seus gols escassos que ainda fazem delirar os torcedores do Flamengo de Bruno, o goleiro assassino. Não, não, minha gente, eu gosto de futebol, até que já gostei do Ronaldinho quando ele era menos boçal, o que me estarreceu foi o lance da Academia Brasileira de Letras conferir ao jogador de poucas, raras ou nenhuma letras, uma medalha que deve ter feito Machado de Assis ter um ataque de vergonha onde quer que esteja na sua merecida imortalidade. Terá a Academia perdido o pudor? Perdido o sentido? Uma jogada de marketing? Não sei. Virou piada e a piada era tão sem graça que virou piada internet afora. Imaginem os senhores, Ronaldinho Gaúcho, do alto de suas madeixas, com a medalha Machado de Assis no peito, sem ao menos saber quem foi Machado de Assis ou conhecer alguma de suas obras. Como vingança, alguns imortais bem poderiam formar um time e dar o troco. Na voz do histérico Galvão Bueno, a escalação do time: "No gol, Olavo Bilac. Lateral direito, Clóvis Beviláqua; zagueiros, Afonso Pena e Coelho Neto. Zagueiros, José Veríssimo e Felinto de Almeida. Volantes, Afonso Arinos e Hélio Jaguaribe. Meias, Afonso Celso, o Celsinho... Graaande Celsinho! E Manoel Bandeira. E os dois atacantes: Ruuuui Barbosa e Maaachado de Assis! Machadinho vai ser uma pedreira! Vai ser marcado por Ronaldinho Gaúcho, mas prometeu que será uma parede... O juiz será Nicolau, o Lalau, auxiliado por Palocci e Fernando Collor. Uma beleza de partida! Globo e você, tudo a ver!" E aí é só imaginar o desenrolar da transmissão: Bola com Rui, que atrasa pra Celsinho. Celsinho dribla Ronalducho e passa a Machado de Assis; Machadinho dá uma caneta em Ronaldinho Gaúcho e arranca para o gol sem ninguém inteligente, sem ninguém capaz de se mancar, de respeitar quem só elevou o nome do Brasil às alturas, e Machado chuta pra fora, morto de vergonha de uma Academia que, na falta do que fazer, é capaz de matar qualquer imortal que se preze...
A. Capibaribe Neto
capi@globo.com

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