Carta aberta a Dilma Rousseff, por Paulo Nogueira


Invencibilidade moral

Cara Dilma:

O que mais me impressiona no drama que você está enfrentando é sua força moral, sua invencibilidade espiritual.

Montaigne escreveu que o real teste da estatura de alguém é sua atitude diante da morte. Sócrates tomou a cicuta consolando seus discípulos. Sêneca cortou os pulsos, a mando de Nero, consolando também seus discípulos.

Força na adversidade. Quantos de nós temos isso?

Não deram a você cicuta e nem uma lâmina para se sangrar até a morte, mas não foi muito diferente disso quando se pensa no universo da política.

E você reagiu com bravura extraordinária. Seus algozes certamente imaginavam que você iria se vergar para facilitar seu trabalho sujo, mesquinho, indecente. Isso jamais aconteceu.

Percebe-se, agora, como foram duros seus breves dias no segundo mandato. A seu lado, um traidor que tramava enquanto produzia mesóclises ancestrais.

Pouco adiante, no Congresso, dois tipos abomináveis. Um deles, Eduardo Cunha, fazendo seu jogo criminoso para derrubá-la enquanto ganhava dinheiro imundo.

Outro, Aécio Neves, um playboy inútil e corrupto, se comportava como um perdedor desprezível, pusilânime, destituído de caráter, honradez e coragem para lidar com a derrota.

Por cima de tudo, pairando como um corvo sobre a democracia e sobre o país, a mídia plutocrata. Os Marinhos, os Frias, os Civitas — os coroneis da imprensa massacraram você desde que anunciada sua vitória para um segundo mandato.

Jamais entendi como você, e aqui vai um reparo que fiz várias vezes, continuou a encher de dinheiro público os bolsos de seus algozes. Caberá aos historiadores do futuro elucidar por que a TV Globo, ano após ano, continuou a levar 600 milhões de reais de seu governo, assim como ocorrera com o seu antecessor.

Mídia nenhuma é obrigada a apoiar ninguém. Mas governo nenhum também é obrigado a anunciar em veículos que, no seu entender, mentem, manipulam, inventam, distorcem todos os dias, todas as horas.

Os 54 milhões de votos que a senhora teve lhe deram autoridade plena para comandar as verbas de publicidade federal. É um dos direitos sagrados de quem vence eleições presidenciais.

Os bilhões torrados em empresas como a Globo e a Abril, a senhora há de concordar, teriam sido infinitamente mais bem empregados para construir escolas, hospitais, portos, estradas, casas populares e por aí vai.

Na história moderna brasileira, a torrencial publicidade do governo serviu apenas para selar um pacto entre políticos corruptos e conservadores e os donos das companhias jornalísticas. Você me enche de dinheiro e eu dou cobertura amiga para você: este o pacto.

Nem Lula e nem a senhora mudaram isso. Uma pena, uma desgraça e, para mim, também um mistério.

Mas de volta ao sítio que lhe impuseram.

Por último, se tudo que foi exposto acima não bastasse, vieram Moro e sua Lava Jato dispostos a erradicar não a corrupção, como se vê pela tranquilidade com que Cunha se movimentou até que os suíços — repito: os suíços, não os delegados da PF — provassem cabalmente o tamanho da sua ladroagem e a enormidade de suas mentiras.

A plutocracia a imobilizou e, suprema canalhice, a acusou depois de imobilidade.

Getúlio meteu uma bala no peito sob um cerco parecido. A senhora decidiu combater o bom combate.

A história haverá de reconhecer o que homens corruptos tentam de todas as formas negar-lhe.

Com admiração.

Paulo