Haddad critica criminalização do debate político e partidarização da imprensa

da Rede Brasil Atual
Prefeito de São Paulo avaliou que eleição deste ano será marcada por campanhas de difamação, mas está otimista quanto a sua situação no pleito. Ele também considera que o governo estadual é "blindado"
Em entrevista à Rádio Brasil Atual o prefeito e pré-candidato à reeleição na capital paulista, Fernando Haddad (PT), avaliou que houve um movimento da elite nacional para nivelar por baixo o debate político, pondo de lado a discussão sobre propostas e tornando a todos potencialmente suspeitos. "Eu entendo que foi tomada uma decisão política pelo establishment, de suprimir a contradição política no país. Não é derrotar. Porque derrotar é pôr ideias em debate, um dos lados vence. É a supressão da representação política dos debaixo que, pela primeira vez em 500 anos, conseguiram encontrar uma voz", afirmou.
De acordo com o prefeito, o resultado dessa ação, no entanto, não foi vantajoso para partidos, empresas ou para a sociedade e fomentou o crescimento da intolerância no país. "As pessoas já não conseguem discernir. Estão jogando todos na vala comum. E, em vez de fortalecer propostas, você está enfraquecendo a todos, políticos e também empresários. Não tem ninguém ganhando com isso."
Haddad credita parte dessa situação a setores da imprensa, que, conforme avaliou, não têm se preocupado em separar opinião de informação, realizando, na prática, campanhas difamatórias em emissoras de rádio e televisão.
"Não acho que precisamos esperar imparcialidade. A imprensa precisa ser transparente. A opinião é essa, mas a informação estando correta, tudo bem. Mas quando partidariza a reportagem não dá", observou.
Segundo ele, nunca receberam destaque na mídia ações de sua gestão, como a renegociação da dívida com a União, o Plano Diretor e políticas de combate à desigualdade social. "Sempre houve lado. Faz parte da liberdade de imprensa ter lado, desde que ela deixe claro ao leitor que é opinião dela", ponderou. "Mas isso não pode afetar a informação. Mas tem uma partidarização no país que está afetando as instituições. E não é só com a imprensa. Isso prejudica o jogo democrático e o debate de ideias para que o eleitor tome sua decisão."
Haddad também reclamou da cobertura "enviesada" dada a outros temas, como a redução de velocidade nas avenidas da cidade e a abertura de vias à população. "Fizeram campanha contra a Paulista Aberta. Que hoje é um sucesso. O que apanhamos por redução de velocidade não está no gibi. Não vi nenhum veículo de comunicação divulgar que os 50km/h são recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segurança no trânsito não devia ser partidarizada", afirmou.
Segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), as marginais Tietê e Pinheiros tiveram juntas redução de 32,8% no número de mortes, no comparativo entre os anos de 2014 e 2015. Em toda a capital, a redução do número de mortes no trânsito foi de 20,6%.
Para o prefeito, as eleições municipais deste ano ainda serão marcadas por campanhas de difamação nas redes sociais. O prefeito já é alvo de várias delas, como o boato de que seu sogro teria uma fábrica de tinta, que vende para a prefeitura pintar as ciclovias. Ou que o prefeito aumentou seu patrimônio e mudou para uma cobertura de luxo no bairro do Paraíso. "Olha, é um inferno o que se faz com reputações na rede", desabafou.
Haddad, porém, espera conseguir maior inserção nas redes sociais e utilizar o período eleitoral para superar a "barreira midiática" sobre sua gestão. "Terei de usar a campanha para reverter três anos de pancadaria. Porque se perdeu o pudor. É muito difícil concorrer com emissoras de TV que têm candidato próprio. São concessões públicas que têm candidato próprio. Que vêm fazendo reportagens muito baixas com objetivos políticos", afirmou.
Os pré-candidatos que têm programas na TV aberta são João Dória Júnior (PSDB), que apresentava um talk show na TV Bandeirantes, e Celso Russomanno (PRB), que mantinha um quadro sobre direitos do consumidor na Record. O apresentador José Luiz Datena, que apresenta um programa jornalístico na Bandeirantes, desistiu de concorrer à prefeitura no início deste ano.
Desinformação
Para o prefeito, além das notícias e comentários negativos, há também a necessidade de superar a desinformação, que leva a população a exigir dele ações que são obrigação do governador Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo.
"O governo estadual é blindado. Não se discute o governo estadual. Então, a população não tem culpa, porque não tem informação. As pessoas realmente não sabem. Chegam em mim e dizem 'o monotrilho não fica pronto', 'estou sem água', 'precisa investir em segurança'. Na campanha vão poder comparar. Enquanto abrimos creches, eles estão fechando escolas. Enquanto criamos faixas de ônibus, eles não abriram nenhuma estação de metrô", afirmou.
A eleição municipal deste ano tem até agora 12 pré-candidatos. Haddad demonstrou confiança pelos resultados de sua gestão, afirmando que pretende fazer uma campanha propositiva. E lembrou de quando, inexperiente em disputas eleitorais, derrotou o tucano José Serra. "Em 2012, eu vim disputar com o Serra, que tinha acabado de sair da campanha presidencial. O Ciro (Gomes) disse que o Serra era imbatível em São Paulo. Meus colegas de partido me disseram que não era possível vencer o Serra com um programa de governo. Mas acho que foi exatamente isso que venceu a eleição."
"Acho que, se a gente conseguir mostrar pro povo o que fizemos, porque a população só tem uma pálida ideia, seja qual for o tema, a gente dá de lavada nos antecessores", acrescentou o prefeito.
Impeachment
Em relação ao processo de impeachment contra a presidenta afastada Dilma Rousseff, e a possível realização de um plebiscito, na possibilidade de ela ser absolvida no Senado, Haddad defendeu que a presidenta Dilma conclua o mandato. "Do ponto de vista do presidencialismo, a preservação do mandato é muito importante. Sei dos constrangimentos da presidenta no debate com os movimentos. Mas se não cometeu crime, termina o mandato."
Para ele, está ficando claro na sociedade que houve um golpe. "Até jornalistas conservadores escreveram que houve ruptura. Não sei se arrependidos, mas percebendo o que houve. Na imprensa internacional, está mais claro de que houve ruptura engendrada", afirmou.
Haddad, no entanto, é pessimista quanto ao desfecho institucional do impeachment, por entender que o presidente interino, Michel Temer (PMDB), articula para que o processo termine com a saída da presidenta. "O governo interino quer ficar no poder e tem a caneta e ela está sendo usada na contramão de tudo o que havia sido dito: nomeações políticas, loteamento de cargos públicos. É muito difícil lutar contra isso. A população se mobilizou, mas a máquina institucional que está sendo usada é muito forte", avaliou.
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