Sede de Poder

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Ciro Gomes: o custo da traição, por Marcio Valley
A capacidade de alguns seres humanos de materializar a hipocrisia parece ser ilimitada. Frequentemente testemunhamos pessoas ultramoralistas e conservadoras, defensoras intransigentes da ética, da ordem, da moral, dos bons costumes, da família, da monogamia e da heterossexualidade, pegas em flagrante praticando pedofilia, ou em relação homossexual, ou com malas de dinheiro em suas garçonniéres, ou em qualquer situação atentatória às pregações que até então realizava. Na verdade, alguns exercitam a hipocrisia a um tal nível que, mesmo após flagrados contrariando o próprio discurso, continuam a exigir dos outros o que não praticam.
Há poucos dias, uma jornalista da Globonews, demonstrando que, fora do teleprompter, a inteligência na Globo é bastante rasa, publicou em seu twitter uma crítica ao Lula por ter ele adjetivado Palocci de calculista e frio, enquanto, no passado, o elogiava. Todos sabemos que os jornalistas da grande imprensa, notadamente os da Globo, são absolutamente “imparciais”. Produzem críticas indiscriminadamente para todo e qualquer político, desde que não sejam do PSDB, preferencialmente sejam da esquerda e, melhor ainda, do PT. Em poucos segundos uma sagaz internauta respondeu ao “tweet”da jornalista: “Quando você chamou Aécio pra padrinho do seu casamento também devia achar muita coisa boa dele, né? Acontece…”. Essa resposta, como não poderia deixar de ser, acabou gerando um gigantesco compartilhamento, possivelmente para desespero da pouco inteligente jornalista, que deveria ter consciência do próprio telhado de vidro.
Nem vale a pena comentar a hipocrisia explícita que reinou no Congresso quando da votação do impeachment da Dilma e a implícita, que acomete os tribunais, principalmente o Supremo.
E quem acaba de ingressar no panteão pouco glorioso da hipocrisia oportunista nacional? Sim, ele mesmo: Ciro Gomes. Sugere ele que o povo não é imbecil e está percebendo as contradições na narrativa de Lula sobre as investigações da Lava Jato. Ciro sustenta que Lula se equivoca ao abraçar Renan Calheiros nas manifestações e que há contradição no PT ter votado no Eunício Oliveira para a presidência do Senado. Afirma que Lula não pode se dizer perseguido pelo sistema, pois quem o está acusando é um companheiro de décadas.
Ciro jogou para a plateia, tentando abocanhar uma fatia do eleitorado antipetista nacional e também dos neutros. Ciro conhece a militância petista e sabe que esta declaração o afastará definitivamente de qualquer simpatia desses militantes. O estrago eleitoral junto aos petistas é irreversível. Se algum petista convicto o considerava uma opção, isso definitivamente acabou. Como, ao menos ao que parece, é impossível classificar Ciro Gomes como um jumento político, um ignorante que tateia aleatoriamente no escuro das possibilidades eleitorais, o que o teria levado a abdicar de quase um terço do eleitorado nacional? Teria sido uma jogada super inteligente que nos escapa, a nós que não possuímos o mesmo atributo de genialidade? Não, não foi. O que o moveu, para ficar numa palavra, foi o desespero. A fonte desse desespero político? A sede de poder que sempre orientou cada passo de Ciro Gomes e a percepção de que o seu tempo está passando sem a abertura de uma janela política favorável. O sentimento de que a desesperança de parcela importante dos eleitores não petistas está sendo canalizada, por eleitores que estão aquém do uso da inteligência, para figuras abjetas que se situam nos limites do gradiente político. A sensação de que, ainda que Lula não seja candidato, o PT possivelmente terá candidato próprio, quem sabe Haddad, quem sabe Lindberhg ou, ainda, Gleise Hoffmann.
Essas percepções aterrorizam Ciro Gomes, pois ele é, nada mais, nada menos, do que uma Marina da Silva ou uma Martha Suplicy do gênero masculino, movido pela mesma impressão messiânica de que tem um destino heroico traçado pelos deuses e que tudo e qualquer um que se interpuser nesse caminho é um empecilho a ser afastado ou mesmo destruído. Assim como Marina e Martha, Ciro delira que nasceu para ser presidente do Brasil, de modo que eventuais pecados cometidos no percurso constituem um dano colateral aceitável em função de um projeto maior e mais importante. Os fins justificam os meios, como diria Dostoiévski através de Raskolnikov. Se a realidade, por vezes, imita a ficção, é interessante lembrar que Raskolnikov não teve um final muito feliz.
Por que entender a declaração de Ciro como demonstração de pura hipocrisia oportunista? Porque ele é um político experiente que não desconhece que, em política, somente os tolos jogam para o tudo ou o nada. Esse é um dilema ético, sem dúvida, mas que é imposto pela realidade inescapável e não pela vontade individual. Ciro sabe que houve um “racha” no PT em relação à votação no Eunício, com grande parte dos parlamentares manifestando-se pela não adesão à chapa do PMDB. A parcela mais “afinada” com a militância, como Lindbergh Farias, Gleisi Hoffmann e Fátima Bezerra, foram contra.
O problema é que, graças ao trabalho incessante da grande mídia e de instituições públicas que abdicaram do seu dever constitucional de zelar pela imparcialidade e legalidade, o PT perdeu fatia importante do poder político. Se abdicasse da mesa do Senado, perderia mais uma importante ferramenta política. De que interessa ao cidadão que um partido se torne totalmente incapaz de influir nas políticas públicas? Ciro quase certamente faria o mesmo, mas assume a postura hipócrita de exigir um purismo programático que não possui, pois praticou e pratica durante a vida pública a mesma política de coalizão praticada pelo PT, que exige, vez ou outro, a exibição de um sorriso amarelo ao abraçar um adversário num palanque.
Quanto a Palocci, Ciro resolve “esquecer”, assim como fez a repórter tucana da Globonews, que a credibilidade das afirmações do ex-ministro de Lula é inversamente proporcional à tortura psicológica que lhe foi imposta pelo grupo de justiceiros de Curitiba: prisão preventiva fundamentalmente ilegal há mais de um ano e possibilidade de ficar preso por vários outros anos caso não mencionasse o nome de Lula. Relembra-se que, inicialmente, mesmo condenado, Palocci nada disse contra Lula. Todavia, não possuindo a mesma integridade moral de um José Dirceu, sucumbiu à tortura e possivelmente denunciaria a própria mãe se moros e dallagnóis assim exigissem.
Como toda pessoa instruída e politizada desse país, Ciro Gomes sabe que Lula sofre uma perseguição política implacável da mídia e da “justiça” desse país. Ele possui perfeita ciência de que o objetivo é varrer o PT e Lula do cenário político brasileiro e evitar à todo custo que Lula seja candidato. E é justamente esse último objetivo que interessa a Ciro e decidiu levá-lo a se tornar sócio do linchamento midiático-jurídico que tenta massacrar Lula. Ainda que ao custo sabido de perder a simpatia dos eleitores petistas.
Ciro imagina que o ganho será maior do que a perda. Quase certamente perceberá que o custo da traição às próprias convicções não está limitado à perda direta da confiança dos prejudicados. Ninguém gosta de traidores, nem de um lado, nem do outro. A aposta já foi perdida: Ciro não será presidente da República na próxima eleição e, a partir de agora marcado pelo signo do oportunismo hipócrita, talvez, nunca.
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