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Na ponta do alicate, por Lucio Vercoza

Enfiou-lhe o alicate entre o dedo e a unha, em seguida o puxou, arrancando o coro rosado. O sangue espirrou. Bastou cair o primeiro pedaço de carne para ela abrir o bico. Falou sobre o emprego fantasma na Assembleia Legislativa e da compra da caminhonete com isenção de impostos para deficiente físico – sendo que ela não era deficiente.

Após uma breve pausa do alicate, passaram uma substância química na cabeça de seus dedos, substância essa que exalava um forte odor. Nesse exato momento, ela voltou a falar de modo tagarela. Afirmou que só um trouxa assinaria a carteira de trabalho de caseiro de casa de praia, que o terreno fora da marinha, porém, agora, depois da ajudinha de amigos da Secretaria, era dela por direito, inclusive com registro no cartório da Praça dos Palmares. A essa altura, suas unhas estavam irreconhecíveis, foram cobertas por um vermelho brilhoso muito chamativo. Algo estranho mesmo.

De repente, não mais que de repente, as confissões foram interrompidas. Ela se levantou da cadeira e se dirigiu ao balcão de saída. Abriu sua carteira, pegou o cartão e pagou no débito. Cruzou a porta do salão de beleza se sentindo mais leve e plena. Olhou para as unhas feitas, conferiu seu reflexo no espelho da caminhonete: agora sim estava se sentido pronta para ir ao protesto contra a corrupção, só faltava passar em casa para vestir a camisa da seleção brasileira.

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