Duas grandes margens constrangem a soberania popular no ato do exercício do voto e a conseqüente escolha de governo. Uma é o custo de formação de maiorias, tema polêmico cujo último escândalo dessa monta ganhara o apelido de Mensalão. A margem menos visível e de difícil compreensão para o grande público é o modelo de financiamento de curto prazo do Brasil, baseado em financeirização e transferência de recursos da sociedade para o sistema financeiro. Em ano eleitoral a primeira margem ganha musculatura, porque na hora de apostar as fichas e compor as chapas, o ambiente político e a obediência aos seus mandos subordinam até mesmo a Henrique Meirelles, o comandante em chefe do governo do Copom.
É difícil de admitir em alto e bom som, mas a verdade nua e crua é que governar no Brasil implica em, ao naturalizar estas margens de constrangimento estrutural e, por tanto, não confrontá-las, admitir dois tipos de alianças. Uma aliança implica em fazer “a opção preferencial” pelo capital financeiro em geral e o sistema bancário em específico. Do contrário, o fim de mandato pode se tornar uma roleta russa, sofrendo reveses simultâneos. Estes podem vir dos banqueiros da ciranda digital, executando ataques contra a moeda e retirada de fundos especulativos, aumentando o “risco” país e já condicionando a entrada do novo governo. Para quem pensa que exagero, basta recordar o ano de 2002 quando a disparada do dólar acelerou aos acordos de bastidores (nem tão velados assim) que levaram Antônio Palocci ao Ministério da Fazenda e o ex-presidente mundial do então maior credor privado do Brasil à presidência do Banco Central.
Outra aliança é o custo da tal da governabilidade. Implica em ceder às chantagens do cacicado das oligarquias partidárias que comandam o baixo clero do Congresso. No caso específico do pleito de 2010, a maior rede oligárquica nacional já demarca seu terreno. Com a derrocada do DEM, cujo canto do cisne deu-se através do desgoverno distrital do ex-tucano José Roberto Arruda e do ex-collorido Paulo Octávio, os PMDBs reinam sozinhos. Como craques da política imediatista, fazem o que na loteria ilegal se chama “cercar o bicho”, reduzindo a aleatoriedade das apostas. Dentro do seu governo federal, foi posto um freio às ambições de Meirelles, neófito nas hostes peemedebistas. Já na presença em palanques, o ataque é duplo. Enquanto o ex-governador Orestes Quércia declara apoio a Serra, seu operador de confiança, o deputado federal Michel Temer, naturaliza sua candidatura a vice de Dilma. Como se nota, dentro da política de curto prazo, ganhe Serra ou Dilma, os correligionários de Quércia, Calheiros, Jucá, Sarney, Geddel e cia. já cercaram o bicho por todos os lados.
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