Fome

“Sei que você, caro leitor, não me conhece. Pois permita que me apresente.

Moro onde olho nenhum me alcança, no ermo das entranhas. Sou ferida exposta que não se vê. Sou espaço baldio entre o esôfago e o duodeno.

Trago das origens uma certa vocação para a tragédia. Não deve ser por outra razão que venho do grego: ‘stómachos’.

Às vezes, invejo o coração que, quando sofre, é de amor. Eu, pobre tripa flagelada, jamais tive tempo para sentimentos abstratos. Perdoe-me o pragmatismo estomacal.

Só tenho apreço pelo concreto: o feijão, o arroz, a carne... Meu projeto de vida sempre foi arranjar comida.

Pois bem, os dados do IBGE, cuja exposição o signatário do blogterceirizou a mim, revelam o seguinte:

Nada menos que 65,6 milhões de brasileiros não se alimentam adequadamente. O número é de 2009. Mas conserva-se atual.

Desse total, 11,2 milhões de patrícios enfrentam o que o IBGE apelida de ‘insegurança alimentar grave’. Eu prefiro chamar pelo nome: fome.

Outros 14,3 milhões de brasileiros arrostam, no dizer do IBGE, ‘insegurança alimentar moderada’.

São catalogadas assim as pessoas que admitiram: em algum momento dos três meses que antecederam a pesquisa, faltou-lhes dinheiro para a comida. Fome.

No mais, há 40,1 milhões de cidadãos em situação de ‘insegurança alimentar leve’. Admitem que, ocasionalmente, o dinheiro não chega à mesa.

Conheço a realidade das estatísticas de perto. Às vezes, caro leitor, reduzido à minha condição de tripa, cobiço a cabeça.

Quisera me fosse dado revisitar glórias passadas ou, melhor ainda, idealizar um futuro promissor. Quisera não tivesse que dançar ao ritmo da emergência.

Meu mundo cabe no intervalo entre uma refeição e outra. Meu relógio, caprichoso, só tem tempo para certas horas: a hora do café, a hora do almoço, a hora do jantar...

Sem comida, meu relógio ficou louco. Passou a anunciar a chegada de cada novo segundo aos gritos.

Nunca tive grandes ambições. Não quero dormir com aquela personagem fogosa que a Maitê Proença representa em Passione. Tampouco almejo a Sena acumulada.

Só queria a solidariedade de um grão escorregando faringe abaixo. Ardem-me as paredes, bombardeadas por jatos de suco gástrico.

Noutro dia, ouvi a Dilma dizer na TV que sua prioridade é acabar com a miséria. Não sei se conseguirei esperar.

Já não me queixo. A privação de alimentos me proporcionou um encontro com a paz. Sim, encontrei a paz na melancolia da fome.

Atingi outra esfera da existência. Estou prestes a trocar o inferno da mesa vazia pelo paraíso da inexistência física.

Temente a Deus, sei que Ele não se atreverá a pôr em meu céu um novo lote de promessas. Não, não.

Meu céu há de ser uma cozinha como a dos brasileiros afortunados, tão farta que me propicie uma fome de rico, dessas que a gente resolve abrindo a geladeira".

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por Josias de Souza 

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