Papo de homem - o erro, o culpado e o chefe

Senta aí!
“Então vai ser assim”, pensou Marcelo apreensivo, enquanto sentava na cadeira vazia em frente à mesa do chefe de operações da unidade de São Paulo. A cara dele não era das melhores e a conversa seria complicada. Marcelo havia errado feio.
— Entende o problema que você causou a essa empresa, Marcelo? Faz alguma ideia do que perder esse cliente significa?
— Na verdade, nós nunca perdemos algo que nunca tivemos.
— Se você for bancar o espertinho, nem vou me dar ao trabalho de ter essa conversa…
— Se você for me demitir de qualquer forma por ter errado, eu também não.
Nem Marcelo acreditou na coragem que teve para falar aquilo. No dia em que ele decidiu que faria as coisas da forma como fez na apresentação para o cliente, sabia que poderia chegar a esse ponto, se tudo desse errado. Era arriscado, era audacioso e com grandes chances de dar errado, e como Murphy nos ensinou, deu errado da pior forma uma vez que o cliente entendeu as ideias de Marcelo como chacota.
— Renato, eu sei que definimos uma estratégia há semanas, sei que conversamos várias vezes sobre isso e eu realmente gostava do nosso escopo inicial. De tanto que mergulhei nesse projeto, acabei tendo outra ideia, meio fora dos padrões… sim, concordo, mas se fosse tocada para frente, mudaria o mercado desse cliente para sempre. Caso a maioria dos objetivos fossem atingidos usando aquela estratégia, estaríamos falando da criação de uma nova Apple…
— Não importa, Marcelo! Você fez a empresa passar vergonha, a diretoria em Minas está querendo sua cabeça. E eu não vou nem mencionar o que o pessoal do Rio quer fazer com você, já que eles conseguiram essa reunião.
— Eu sei que agora não importa mais. Eu preciso que você entend…
— Se eu não entendesse, você acha que estaria tendo essa conversa comigo agora?
— …
— Você é um rapaz inteligente. É tranquilamente um dos melhores colaboradores…
 Não sou colaborador, sou empregado…
— Posso terminar?
— Desculpe.
 Você é meio petulante, meio arrogante, mas tem ótimas ideias. Convive bem com o pessoal, quando não enfia uma ideia na cabeça e começa a não aceitar a opinião de mais ninguém. Eu vejo um futuro brilhante para você, Marcelo, mas você tem que me ajudar, pô! Pare de achar que você vai resolver tudo sozinho. Se não trabalhar junto com outros, e não usar o que tem de melhor para um objetivo maior do que conquista pessoal, então você vai ser pra sempre o que é hoje… um grande ponto de interrogação.
Todos nós sabemos que em qualquer situação existem momentos-chave que, dependendo da sua escolha, irão mudar completamente o final da história. Marcelo sabia que o que ele dissesse agora decidiria o rumo das coisas. Independente do resultado, ele iria seguir seu feeling – que afinal de contas era o que tinha colocado ele nessa situação.
Marcelo respirou fundo e preparou o discurso:
“Eu errei por não ter vendido a ideia antes para todo mundo, mesmo que não houvesse tempo para isso. Devia ter seguido sua liderança e não agido de forma egoísta. Às vezes, acreditamos tanto em alguma coisa que seguimos adiante, não importam as consequências. Mesmo assim, acho toda essa reação um tanto exagerada. Você não pode me culpar por tentar. Eu sou culpado por aquilo que disse e não por aquilo que outra pessoa entendeu.
Não posso ser execrado como um pária porque um cliente ou qualquer outra pessoa não entendeu o que eu disse. Você mesmo disse que concordava com o que fiz, mas claramente discorda da forma que eu fiz. Tudo bem. Mas me puna apenas por aquilo que sou culpado. Todos nós erramos por vários motivos, grandes homens ou homens sem importância.
É dito por aí que Einstein era péssimo em algumas matérias na escola. Nobel explodiu o laboratório inteiro quando inventou a dinamite, Colombo errou o caminho das Índias, Michael Jordan inventou de jogar beisebol antes de encerrar a carreira, Sergei Korolev explodiu inúmeros foguetes antes de conseguir mandar pela primeira vez para o espaço, James Cameron dirigiu Piranhas antes de Exterminador do Futuro 2, Henry Ford faliu duas empresas antes de abrir a Ford.
Eu, você, nossos pais, colegas, amigos erram, mas as grandes mentes e prodígios da humanidade também erraram feio antes de conseguirem grandes feitos.
A lista é interminável. Você pode nomear quase qualquer um e ele terá algo no currículo do que não se orgulha muito.
Os russos foram os primeiros em tudo na corrida espacial, menos pisar na lua, e eles só não foram primeiros nisso também por causa da morte prematura de Korolev. E se eles tivessem desistido dele antes?
Isso sem falar na humanidade como um todo e nas atrocidades que já cometemos. Erros imperdoáveis que nunca devem ser esquecidos mas que devem ser superados através do esforço em conjunto para que eles jamais se repitam.
Eu não estou, obviamente me colocando no mesmo nível de algumas dessas grandes mentes que citei.
Estou apenas dizendo que o senhor estaria cometendo um grande erro ao me demitir sem me dar outra chance.”
— De acordo com sua lógica, se eu cometer esse “grande erro” de demiti-lo eu poderia dormir tranquilamente sabendo que grandes homens também cometem erros.
— Várias editoras recusaram Harry Potter antes de ser lançado pela Bloomsbury. Walt Disney foi demitido do jornal que trabalhava, por não ter imaginação, nem boas ideias. A Decca Records disse que uma certa banda chamada Beatles não tinha futuro no show business…
— …
— Eu não vou prometer que não vou errar. Porque eu vou. Errarei grande e pequeno. Só posso prometer me envolver mais com a equipe e confiar no seu direcionamento.
No meio do argumento Marcelo já tinha certeza de qual seria o resultado. Mesmo assim, aqueles segundos antes do chefe de operações Renato Costa dizer qualquer coisa eram torturantes.
— Eu quero um e-mail endereçado para toda a equipe envolvida com uma retratação. E quero que você se concentre no próximo trabalho. – disse Renato por fim.
— Obrigado.
— Até mais.
Marcelo então saiu da sala do chefe e sentiu vários olhares atraídos para si.
Sentou e voltou a escrever.

Pedro Turambar

blog O Crepúsculo e No Twitter, atende por @pedroturambar.


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