Clóvis Rossi: não são previsões, são chutes


Esqueça a catarata de previsões sobre o desempenho da economia publicadas recentemente. Não passam de "chute".

É a cândida confissão de um "chutador", Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, em artigo publicado quinta pela Folha.

Borges acusou o golpe representado pelas críticas do "grande público aos analistas econômicos (economistas principalmente) e às suas projeções" (para o desempenho da economia em 2012).

Resolveu, então, explicar que "os erros são inevitáveis em razão de uma série de razões" que ele lista em seguida.

Depois de ler as tais razões, a única conclusão possível é a de que não há previsões, mas "chutes", até porque a primeira razão já seria suficiente para não tomar palpites de analistas/economistas como se fossem a palavra de Deus: "O mundo real é caracterizado pela incerteza em relação ao futuro".

Tremenda obviedade, mas necessária porque boa parte dos economistas se acha profeta infalível. Para aliviar a barra dos economistas tapuias, é forçoso dizer que no mundo todo todo mundo "chuta".


A propósito: na quinta-feira, Nick Malkoutzis, subeditor da edição em inglês do jornal grego "Kathimerini", exumou, em artigo para o "Guardian", previsão de William Buiter, economista-chefe do Citigroup, para quem a Grécia deixaria a eurozona no início de 2013.

A Grécia não só continua no euro como, em novembro, os depósitos em seus bancos aumentaram pelo terceiro mês consecutivo, sinal de confiança, depois da sangria de depósitos dos três anos anteriores.

Não quer dizer que a Grécia saiu da crise, mas, se os clientes do Citi fizeram apostas com base no "chute" de Buiter, perderam dinheiro. Mas o economista-chefe continua no cargo e continua "chutando".

É uma pena que os jornalistas brasileiros não sigamos a recomendação do título do artigo de Malkoutzis: "Única certeza sobre a Grécia em 2013? Previsões são fúteis".

No Brasil, continuamos ano após ano reproduzindo acriticamente previsões dos mesmos oráculos que erram ano após ano. Nem sequer tomamos o cuidado de avisar aos leitores que as previsões estão sujeitas a "erros inevitáveis", para voltar ao texto de Bráulio Borges.

Anos atrás, sugeri em coluna na página A2 que excluíssemos da lista de fontes todos os analistas/economistas que tivessem errado por x pontos percentuais suas previsões sobre o ano anterior. A sugestão continua valendo, embora admita que ela se tornou impraticável agora porque todos os oráculos erraram nas suas previsões sobre o crescimento brasileiro.

Borges termina seu artigo defendendo a validade do que chama de "projeções", mas que, na verdade, são "chutes". Escreve: "É bem melhor enxergar a luz no final do túnel (mesmo que possa estar bem distante) do que tentar caminhar na completa escuridão".

Bom argumento, desde que os jornalistas deixemos claro que a luz pode ser a da saída do túnel ou a de um trem vindo em direção contrária ou de um vagalume ou de qualquer outra ilusão ótica.
Clóvis Rossi
Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno "Mundo". É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo" e "O Que é Jornalismo". Escreve às terças, quintas e domingos na versão impressa do caderno "Mundo" e às sextas no site.

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