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A família que rouba unida permanece unida, por Armando Rodrigues Coelho Neto


Bilhete Premiado

Poucos sabem, mas eu tenho um alter ego, e muito do que escrevo é fruto de conversa com ele ou eles, a quem trato como meus botões. Numa dessas conversas lembrei:
- Aconteceu em 1983, na cidade de Ponta Porã/MS, onde trabalhei como delegado federal. Recebi a notícia de um “investimento” que rolava na cidade. As pessoas que possuíam um dinheirinho de reserva aplicavam num fundo, cujo nome não me lembro. Era uma tramoia coisa séria, como jogo do bicho, fio de bigode. Quem comprava aquele bilhete tinha um retorno garantido que banco algum pagaria. Os controladores da tramoia usavam o dinheiro para comprar droga em Pedro Juan Cabalero/Paraguai, separada de Ponta Porã (quase) por uma linha imaginária. Compravam droga barata, vendiam caro não se sabe pra quem, mas o lucro era suficiente para remunerar os “investidores”.
A notícia me chegou de forma confidencial por meio de um “corrupto de estimação”. Preservar a amizade com ele me era instrumental, era uma forma de saber bastidores da marginalidade. “Todo mundo compra o título, doutor”, dizia, SS, quase tentando me convencer a comprar também. Todos sabiam que comprar o título era financiar o tráfico. Mas, qualquer dondoca ou dondoco esclarecido criticava o tráfico, suas consequências, era destruir famílias, patati patatá. Fingiam. Em qualquer CTG (Centro de Tradição Gaucha), reunião de maçons ou churrasco de paca entre milicos, todo mundo era contra a droga, contra a corrupção, contra o contrabando. Eram contra tudo aquilo que eles próprios financiavam e que fingiam combater...
Pois bem. Até Sejumoro sabe que o ex-presidente Lula não é ladrão e o STF também. Qualquer político inteligente sabe que, corromper Lula seria matar a galinha dos ovos de ouro. Lula é patrimônio do Partido dos Trabalhadores, é também seu grande líder e arrebanhador de votos. Seria erro crasso do PT criar rabo para Lula. Eis a lógica primária que os barnabés da cortes de justiça, os falsos moralistas de plantão e a classe média (quase toda) fingem não saber. Do mesmo modo que fingem não saber que aquilo que arrogam contra Lula faz parte da cultura deles e até da dita corte suprema, seus adoradores, asseclas, acólitos e bolsopatas em geral.
Em 9/2/2017, o fotógrafo Lula Marques registrou imagem do celular do então deputado Coiso, na qual ele dizia ao filho que é deputado por São Paulo: “Mais ainda, compre merdas por aí. Não vou te visitar na Papuda” ... “Se a imprensa te descobrir aí, e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu”. O que poderia levar o filho do Coiso pra Papuda? Mistério. Agora, em dias alternados e em coisa de minutos, 48 depósitos apareceram na conta do outro filho, eleito senador pelo Rio de Janeiro. O próprio Coiso deu um passeio no dinheiro que recebeu da JBS. A isso se soma o suspeito cheque em favor de sua esposa e os aparentes vínculos com um certo Queiróz (o único motorista quase rico do mundo a ganhar foro privilegiado do STF). “Carlos amava Dora, que amava Pedro, que amava ....toda a quadrilha” (Chico Buarque).
A cultura do Coiso é a cultura do Sejumoro, é a cultura da classe média. Todos sabem como ela funciona. A matéria “EXCELENTÍSSIMA FUX - Como a filha do ministro do STF se tornou desembargadora no Rio”, escrita por Malu Gaspar, ilustra bem esse fenômeno no judiciário (Revista Piauí). Os delegados federais “Mosca Azul” da PF também reforçam a tal cultura e a eles se somam os que vivem na Lei do Gerson, os compradores de “bilhetes premiados” que geram vítimas e falsas vítimas - seja de estelionatários ou vítimas de sua própria ganância. Na lista entram funcionários públicos que depositam dinheiro para ganhar verbas de ações judiciais onde nunca figuraram como partes. É a mesma cultura de quem burla o Código do Consumidor para tomar dinheiro de pobre. Qualquer semelhança com Ponta Porã...
Risível, não? Hoje, a TV Globo brinca de oposição buscando verba oficial por caminhos transversos, como se dissesse: “ou abre o caixa ou vou te detonar todos os dias”. Mas, foi ela quem abriu caminho para o Coiso, fingindo combater até sonegação que ela própria praticaria (as turmas recursais da Receita Federal que o diga). Foi ela que transformou o Coiso no “bilhete premiado” da classe média, que sabia ser falso, tinha tudo para ser falso, mas se viu nele e vislumbrou vantagem. Como diz meu alter ego, a classe média de tanto fingir, está a comer o próprio vômito chamando de caviar... 
- Armando Rodrigues Coelho Neto - jornalista, ex agente da Polícia Federal do Brasil e integrante da Interpol

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