Transbording - crônica

de Luis Fernando Veríssimo
Triste o país que tem vergonha da própria língua.
Fico pensando num corretor de imóveis tendo que mostrar, para compradores em potencial, um apartamento no edifício Golden Tower, ou similar, em algum lugar do Brasil.
— Isto é o que nos chamamos de entrance.
— Entrance?
— Ou front door. Porta da frente.
— Ah.
— Aqui temos o living room e o dining room conjugados. Ou conjugated. Por aqui, a gourmet kitchen.
— Kitchen é…?
— Cozinha, mas nós não gostamos do termo. Isto aqui é interessante: é o que chamamos de coffee corner, onde a família pode tomar seu breakfast de manhã. A gourmet kitchen vem com todos osappliances, e o prédio tem uma smart laundry comunitária.
— O que é smart laundry?
— Não tenho a menor ideia, mas é o que está escrito no flyer. E passamos para o corridor que leva ao master bedroom, ou suíte, em português. As camas podem ser king size ou queen size. Aqui temos o closet, que em português também é closet. E aqui temos esta giant window que dá para o garden do prédio, e o playground. Você tem kids?
— O quê?
— Kids. Crianças.
— Ah. Não.
— O garden também tem uma green walk, que é uma trilha para passear entre as trees and tropical plants, e um infinity pool que é uma piscina que parece que está sempre transbordando, outransbording. Além disso, claro, existe um indoor pool, que faz parte do fitness center. Ah, e se comprarem o apartamento vocês automaticamente passam a fazer parte do party club, onde tem um barbecue pit.
— Barbecue pit?
— Churrasqueira. E podem usar o working hub, que eu também não sei o que é, mas com esse nome só pode ser coisa fina.
— E a segurança...?
— Garantida dia e noite, ou twenty-four/seven.
— Porteiro?
— Sim, mas não chamamos de porteiro. Ele é um hall concierge.
— Tudo ótimo, mas não sei se vamos comprar o apartamento.
— Por que não?
— Ter que mostrar o passaporte, sempre, para entrar em casa... Sei não.


Publicada originalmente no Estadão

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