Segunda-feira, na primeira sessão desta semana, que por ser santa também é morta, três senadores ocupavam o plenário. Um presidia, outro discursava e o terceiro ouvia. Foi pena para os 78 ausentes, porque o pronunciamento do senador Roberto Requião insere-se como um dos mais importantes do corrente ano. Sem fazer questão da presença dos gazeteiros, o ex-governador do Paraná começou analisando a crise econômica mundial para depois chegar ao Brasil e aos perigos que nos cercam.
Lembrou ser a especulação financeira a essência do mal que de novo assola a Europa e os Estados Unidos, lançando olhares para a América do Sul. Em suas palavras, há uma impiedosa transferência de trilhões de dólares pelo mundo, sem compromisso com a vida do ser humano e atrás apenas do lucro fácil, favorecido e estimulando a inflação. A quebra das indústrias, o desemprego, a compressão dos salários, o aumento de impostos e o atraso tecnológico são consequências inevitáveis da especulação hoje acentuada em Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha e outras nações. Trata-se da receita obrigatória imposta pelos governos e entidades internacionais, os mesmos responsáveis pela crise e agora empenhados em resolvê-la através de métodos que só fazem piorar as agruras de suas populações.
Requião referiu-se aos privilégios exorbitantes concedidos aos Estados Unidos, centro do mercado financeiro de curto prazo, que elimina as economias nacionais e nem por isso poupa a própria sociedade americana. Em nome do lucro, cortam direitos sociais e empregos, ao mesmo tempo gerando crises de representação e inflando o populismo de direita.
Para o senador, Brasil, China, Índia e Rússia devem levantar-se em contraposição ao domínio do dólar, levando a Europa a adotar políticas de proteção ao trabalho e de prevalência da produção sobre a especulação. Investimentos precisam ser feitos em habitação, alimentação e educação. Cabe aos países em desenvolvimento pressionar os Estados Unidos e sacudir o jugo do capitalismo financeiro, sob pena de mergulharmos no abismo que já domina boa parte do mundo.
Lamentável foi o palco onde transcorreu a denúncia de Roberto Requião, carente de atores e de platéia, mas não se dirá que ele deixou de cumprir seu dever, também ignorado pela mídia. Sequer um registro de suas palavras mereceu espaço nos jornais de ontem. Fica o protesto.
Carlos Chagas
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