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Paulo Coelho: uma historia do Islã


Sadi de Shiraz contava a seguinte história:
"Quando eu era criança, costumava rezar com meu pai, meus tios e primos". Todas as noites nos reuníamos para escutar um trecho do Corão.

"Numa destas noites, enquanto meu tio lia uma passagem, reparei que a maior parte das pessoas dormia. Então comentei com papai: "nenhum destes dorminhocos é capaz de ficar atento às palavras do profeta. Jamais chegarão até Deus!"

E meu pai respondeu: "meu filho querido, procura seu caminho com fé, e deixa cada um cuidar de si. Quem sabe, em seus sonhos, eles estão conversando com Deus. Eu preferia mil vezes que você estivesse dormindo como eles, a ter que escutar este seu julgamento duro, e esta sua condenação".

Liberdade artística x Credos Religiosos

Não é possível dizer se o filme sobre o profeta Maomé foi o responsável pelo ataque ao consulado dos Estados Unidos, em Benghazi, na Líbia, ou apenas um pretexto, mas, independentemente desta conclusão, sua realização é condenável. 

Não se justifica que em nome de uma suposta liberdade artística se fira, de maneira grosseira como parece ser o caso, credos religiosos, ainda mais em um momento de tensão, publicamente conhecido, como o que se vive atualmente no mundo em relação ao islamismo. 

Qualquer atitude gera consequências, e, no caso do filme, não é preciso ser nenhum vidente para saber que seriam as piores possíveis. Continua>>>

A lei

[...] do Talião deve prevalecer numa sociedade dita "civilizada"?

BARACK OBAMA IGUAL A ERNESTO GEISEL?

Por Carlos Chagas
Os episódios recentes no Paquistão e na Líbia lembram com clareza aquilo que o jornalista Elio Gaspari publicou em livro, a respeito da reação do general Ernesto Geisel ao ser informado de que um grupo de subversivos chilenos havia sido morto pelas forças de segurança, ao tentar entrar no Brasil: “Tem que matar mesmo, não é?”

No caso, matar sem julgamento, em especial nos países onde não há pena de morte. Qual a diferença entre o tonitruante general-presidente e o ameno Barack Obama, para quem  justiça foi feita com o assassinato de Osama Bin Laden?

Ambos justificaram as mortes sem sentença judicial por conta do execrável comportamento de subversivos e terroristas, uns explodindo as Torres Gêmeas, quartéis, navios e embaixadas, outros seqüestrando, assaltando bancos e matando.

Abre-se o século sob discussão que vem de tempos imemoriais: deve o poder público adotar as mesmas táticas dos adversários postados à margem da lei? Prevalece na Humanidade o Talião, aquele do “olho por olho e dente por dente”?

Torna-se difícil explicar  às famílias de centenas de milhares de vítimas que o Estado tem limites, quando constituído para gerir a sociedade organizada segundo princípios justos e democráticos. Não sendo assim, prevalecerão  a barbárie, a vontade e os interesses do mais forte.

Assistimos, na mesma semana, a execução sem julgamento de Bin Laden e, não muito longe, na Líbia, o bombardeio dos palácios de Kadaffi, onde morreram um filho e netos do ditador. E pela ação dos mesmos, afastado o eufemismo de que foram aviões da Otan a atacar Trípoli. Eram americanos, da mesma forma como os helicópteros utilizados no Paquistão.

Seria bom meditar na evidência de que Barack Obama e Ernesto Geisel possuem muito mais semelhanças do que diferenças.

Pax americana

A ação militar americana que levou à morte de Osama Bin Laden reafirma: tentar entender as relações dos Estados Unidos com o Islã pelas lentes da simplificação pode levar a soluções óbvias, e erradas, para problemas complexos.


É antiga a expressão, e aqui cai bastante bem.

O terrorista mais procurado do mundo era hóspede de uma casa instalada num importante complexo bélico paquistanês. Pertinho dali, a principal academia militar do país.

Tipo morar em Resende, nas redondezas de Agulhas Negras.

É bem razoável supor que alguém graúdo sabia da presença de Bin Laden ali. O Paquistão tem bomba atômica, tem um poderosíssimo aparelho militar e de inteligência. Não é governado por amadores.

E é igualmente razoável supor que Bin Laden recebia proteção do entorno. De gente bem relacionada, ou bem posicionada.

As relações — ou infiltrações — da Al-Qaeda no establishment do Paquistão têm sido objeto de preocupação dos americanos. O megapesadelo é o Paquistão nuclear cair sob o domínio da Al-Qaeda.

Os paquistaneses e os hoje alqaedianos combateram juntos, com apoio dos americanos, a ocupação soviética no Afeganistão. Os laços são antigos e quase naturais.

O fim da Guerra Fria rearranjou o jogo. E houve o 11 de setembro. E o Paquistão se equilibra no arame: é um importante aliado de Washington na guerra ao terror, mas também um foco de terrorismo potencial.

E não só potencial. O serviço secreto paquistanês é suspeito (uso “suspeito” para ser sutil) de ser uma organização terrorista. Que o digam os indianos.

A operação para liquidar Bin Laden olho no olho tem grande valor em si, mas deve também ser tomada como demonstração da vontade de guerrear da potência imperial. Sem o que potência nenhuma sobrevive.

É o que se passa na Líbia, mas com franceses e britânicos no papel de cabeças do império.

Trata-se da peculiar doutrina Obama de distribuir protagonismo imperial. Cada um no seu quintal.

E é divertido lembrar como a França guerreou na época contra a ideia bushiana de invadir o Iraque.

A teoria da disposição para o combate ajuda a explicar por que, afinal, o Iraque de Sadam Hussein acabou invadido e ocupado.
A aventura do Kweit não iria ficar por isso mesmo.

Potências imperiais podem quase tudo. Só não podem perder. Pois, quando perdem, seus governos caem. Ou acontece coisa pior.

Watergate foi Watergate, mas sem o Vietnã talvez o desfecho de Richard Nixon na Casa Branca fosse outro.

Depois de Nixon, houve Gerald Ford, nomeado pelos republicanos, e Jimmy Carter, eleito. Um democrata que perdeu o Irã e o Afeganistão. Quando tentou a reeleição foi mandado de volta para a Georgia plantar amendoim.

Por causa dessa regrinha, a eliminação cirúrgica de Osama Bin Laden vem a calhar para Barack Obama, mas também para os Estados Unidos diante da onda de revoltas e revoluções árabes.

Desde o começo, Obama preferiu não confrontar as rebeliões, mesmo quando voltadas contra aliados dele. É a política do estamos com vocês na luta pelas liberdades. Não somos aliados incondicionais de ditadores.

Desde que, naturalmente, os movimentos não se choquem com os objetivos estratégicos de Washington.

O mundo árabe é bem mais complexo do que a América Latina, mas a receita que se busca é a mesma. Transformações sociais e políticas, sim, desde que no contexto da pax americana.

Não por outro motivo Obama fez questão de nos apontar como exemplo para o mundo quando esteve aqui neste ano.
Alon Feuerwerker

Burca

[...] porque condeno a lei contra

Vi uma mulher de burca pela primeira vez no metrô de Londres, no verão de 1977. Eu tinha 22 anos, e senti pena, repulsa e impotência. Fazia calor nos vagões. Os homens que a acompanhavam falavam alto, ignorando-a. Eu tentava ver os olhos da mulher por trás da tela negra. Seria jovem, idosa? Seu olhar seria resignado ou um pedido mudo de socorro? Conseguiria respirar? Culpei os homens e o fanatismo islâmico. Ali estava uma mulher condenada à ausência de desejos.
Hoje, eu me vejo condenando a nova lei na França. O governo de Nicolas Sarkozy decidiu multar em € 150 toda mulher que, num espaço público, se cobrir com dois tipos de véus muçulmanos: a burca e o niqab, que só insinuam ou mostram os olhos.
Dirigir, ir a locais de culto e trabalhar com esses véus pode. Mas caminhar, ir a parques, museus, hospitais etc., não. A lei permite o xador e o hijab, que deixam a face exposta, e não cita o islamismo ou credos religiosos. Proíbe apenas “a dissimulação do rosto”. O slogan é: “A República se vive com o rosto descoberto”.
O que a França consegue com isso? Transformar um símbolo de opressão num símbolo de autodeterminação religiosa e até feminina. Muitos se rebelam contra a arrogância do Estado que decide determinar como a mulher deve se vestir. Chrystelle Khedouche, francesa de 36 anos que se converteu ao islã, disse: “Decidi não usar o véu islâmico... agora, me obrigar a não usar é suprimir minha liberdade”.
Antes que o fundamentalismo católico, ateu ou feminista desabe sobre mim, vamos aos fatos, despidos de preconceitos. Há 5 milhões de muçulmanos na França. Menos de 2 mil mulheres usam burca ou niqab. Em Paris, não passam de 800. Elas se concentram em bairros de imigração árabe. Pela lei, policiais podem pedir que a mulher retire o véu para se identificar, mas não podem forçá-la a nada. Caso ela se recuse, eles a levarão à delegacia, e ela será multada.
Essa minoria de muçulmanas já disse não se opor a mostrar o rosto ao pegar filhos na escola, ou à entrada de um banco ou museu. Mas se nega a abrir mão do véu.
Por trás da letra da lei, existe hipocrisia. Sarkozy precisa de medidas populares para melhorar suas chances de reeleição. A maioria dos franceses apoia o veto aos véus. Cita valores laicos e de liberdade da República francesa. São argumentos que soam legítimos.
O véu integral, que não é pré-requisito no Alcorão, fere a dignidade da mulher por subtraí-la da sociedade. Muçulmanas obrigadas pelo marido a se cobrir estariam, enfim, livres para mostrar o rosto. É verdade.
Mas e as que não abrem mão de se vestir assim? A França estaria violando seus direitos humanos.
Leia a íntegra do artigo Aqui

Massacre em Realengo

Porque a espetacularização e a manipulação inescrupulosa das tragédias não tem limites

Exclusividade garante o uso seletivo de gravações encontradas pela polícia no caso de Realengo
  
"Em seu sentido literal, Islã significa fazer a paz, Islã é a religião e o modo de vida da construção da paz. Fazer a paz, exatamente como o nome sugere, é o objetivo do Islã".
Conselho Internacional para a Informação Islâmica.

Só mesmo a ânsia de aparecer levou esse jovem a se pendurar numa cruz em frente a escola da tragédia
 
Aconteceu o pior: ao invés da reflexão serena, profunda e abrangente; ao invés da autocrítica honesta, aconselhável e pertinente, as mercenárias penas tratam de tingir a tragédia da escola pública de Realengo com as cores berrantes da espetacularidade, insinuando até envolvimentos sem nexos, numa sequência de impropérios e leviandades irresponsáveis, como forma astuciosa de redirecionar e industrializar o crime, por si tormentoso.
Agindo como por encomenda, como se a soldo de interesses inconfessáveis, escribas de aluguel se deleitam numa torpe e pueril teoria da conspiração, a que se juntam vozes amargas dos porões da intolerância empedernida, espargindo veneno e ódio no organismo frágil de uma sociedade já afetada por uma disfunção cerebral monitorada por aparelhos.

Esses senhores dedicam-se a um jogo sujo de cartas viciadas, ao ponto de criminalizarem o Alcorão, a Bíblia do islamismo - uma religião com mais de um bilhão de adeptos - como se fosse um manual de terrorismo e violência. E sugere que o Islã seria uma fonte de inspiração mortífera, quando ao contrário, a própria tradução do termo significa "fazer a paz", como define didaticamente o Conselho Internacional de Informação Islâmica.

O ato criminoso de Wellington Menezes de Oliveira já foi a erupção de um tumor numa sociedade infectada pela hipocrisia e a mistificação, como escrevi antes. Por seu caráter inusitado, pela inocência de suas vítimas na flor da idade, causou torpor e revolta, desencadeando uma sucessão de reações em cadeia, algumas em decorrência dos melhores sentimentos solidários, outras, porém, impulsionadas pelo exibicionismo compensatório e ou forjadas pela rede de intrigas e sensacionalismo, onde o escrúpulo é palavra proibida.

Pais e professores das escolas de todo o país - e além-fronteiras - se sentiram igualmente feridos pelas 60 balas disparadas na escola onde odiosas práticas comuns e toleradas levaram o filho adotivo de uma "testemunha de Jeová" a gestar uma personalidade macabra e megalomaníaca, tendo como ingredientes axiomas rígidos e hábitos irracionalizados, marcas de crentes tão fanáticos que se recusam à transfusão de sangue, para preservar a pureza dos seus corpos. 
Só mesmo a ânsia de aparecer levou esse jovem a se pendurar numa cruz em frente a escola da tragédia
 
Diferenças entre evangélicos

Ao apontar a influência do fundamentalismo cristão no contexto desse ato insano e ao reclamar maior discrição na prática pastoral, quis chamar à responsabilidade os caçadores de rebanhos, que competem entre si para ampliar seus domínios, fazendo uso da massa angustiada para todos os fins, sejam econômicos ou políticos.
Os poderes excepcionais de que se acham dotados certos pastores e práticas fanatizadas atraem pessoas sem respostas para suas angústias. Essa atração leva milhares de jovens a uma busca fantasiosa, em meio à falta de perspectivas pessoais e a humilhações repetidas. 
Entre os evangélicos, porém,  há igrejas sérias, sobretudo as tradicionais, que se recusam à conquista de adeptos pela exibição da "graça", essa encenação grotesca da cura a granel. Insisto em que o recato impõe os limites dos templos para o exercício dos cultos e não essa escandalosa utilização da televisão e do rádio em shows caricatos,  marcados pelo mais leviano charlatanismo.

Não há, portanto, aproveitamento capcioso com segundas intenções na constatação da influência produzida pela interpretação do óbvio.
 
Já em relação ao alegado "fascínio" do assassino pelo 11 de setembro dos seguidores do Al Qaeda, devidamente conectados com a CIA (como hoje demonstra farta documentação) ah, aí temos uma forçação de barra no pior estilo, sugerindo o dedo sempre ativo dos atuais usurpadores das terras árabes.

Exclusividade que manipula os fatos

Há toda uma clara manipulação com objetivos igualmente visíveis. Essa manipulação passa, mais uma vez, pelo enorme poder de exclusividade que a rede Globo tem sobre as investigações policiais, dispondo segundo seu interesse e na forma que lhe aprouver a divulgação "editada" do material descoberto.

Ficamos sabendo que a polícia achou três discos rígidos que o assassino teria tentado destruir - um deles ainda sem condição de leitura, nos quais a Globo, e somente ela, pinçou duas gravações feitas pelo assassino.

A partir daí, acumulam-se dúvidas: ele tinha três computadores? Seu computador tinha três hds? Por que destruiria a gravação em que tenta justificar sua monstruosidade? Por que a Globo publicou parte das gravações, exibindo apenas alguns trechos? O que há nos outros que não vem a público?
Mesmo em meio a tanta má fé, há uma percepção claríssima: fossem políticos os impulsos criminosos, o jovem assassino teria procurado alvos políticos, como nossas casas parlamentares e nossos governantes. Nesse caso, provavelmente, apareceria muita gente para justificar o eventual massacre que provocasse. Mas seu gesto, insito, foi de natureza existencial, procurando embasamento na leitura equivocada dos textos bíblicos, assimilados por sua mente já em estado de decomposição.

Os anátemas sobre os árabes e muçulmanos

Por interesse do sionismo, que hoje prepondera no complexo financeiro, político e midiático das grandes potências ocidentais, o povo brasileiro vem sofrendo sistematicamente descargas de informações cavilosas para criar uma imagem negativa da causa de libertação da palestina, do povo árabe e do islamismo.

Essas práticas insidiosas tentam encobrir o papel de cabeça de ponte que Israel joga na estratégia de estender-se do Eufrates ao Nilo para apoderar-se do petróleo e das riquezas naturais de todo o Oriente Médio, em parceria com as grandes empresas multinacionais.

Há bastante tempo, pintam como sob impulso religioso as ações destinadas a resgatar a dignidade do povo palestino, sob ocupação estrangeira há 61 anos, com a violação brutal dos seus direitos às suas terras e das próprias resoluções da ONU. Omitem deliberadamente que milhares de palestinos tiveram suas propriedades confiscadas e hoje vivem em condições subumanas, abaixo de todas as linhas de referência social, não lhes restando senão lutarem pela sobrevivência mínima a custa do sacrifício das próprias vidas. Tais práticas, sem prejuízo da fé religiosa, são de natureza essencialmente política.

Quanto à exploração de correntes religiosas do islamismo para fins bélicos, é bom que você saiba que foi a CIA quem "descobriu esse filão" ao armar e treinar os afegãos que se insurgiram contra a influência soviética em seu governo. Até os idos de 1987, Osama Bin Laden era um bilionário saudita de forte pendor anticomunista e hábitos exóticos. Foram os americanos que lhe puseram a primeira arma na mão.

Ligações fantasiosas e novos riscos

Nesse episódio trágico de Realengo os manipuladores contumazes viram a oportunidade de associar seu protagonista a "grupos extremistas islâmicos", que não existem em hipótese alguma entre nós, brasileiros. E se existissem assim, ao alcance de um esquizofrênico, nossas forças de segurança estariam comendo mosca e passando recibo da mais comprometedora incompetência.

Para isso, os manipuladores contam com a vulnerabilidade da opinião pública. Pois se há carradas de exemplos terroristas em escolas eles estão nos Estados Unidos da América, onde pelo menos 41 jovens participaram nos últimos anos de 37 atentados em recintos estudantis. Num deles, no dia 16 de abril de 2007, Cho Seng-hui, de 23 anos, matou 32 pessoas e feriu outras 25 no Instituto Politécnico da Universidade de Virgínia, gravando antes um vídeo em que declarava:"morri como Jesus, para inspirar fracos e indefesos".

A falta de seriedade no trato midiático do episódio de Realengo, a sua espetacularização a níveis incomensuráveis e a tentativa de alguns políticos aparecerem com os salva-vidas da pátria sinalizam, infelizmente, para probabilidades de ações com o mesmo impulso macabro.

O canto do desarmamento e o umbigo da sociedade

Só mesmo um decrépito sem escrúpulos como o senhor Sarney seria capaz de tirar casquinha na dor alheia, oferecendo a cortina de fumaça do plebiscito inócuo para retomar o debate sobre a proibição da venda de armas, como se o assassino de Realengo não tivesse condição de comprar revólveres se tal providência estivesse em vigor.

É claro que essa suposta panacéia voltará à tona até porque a sociedade humana é capaz de tudo, menos de olhar para seu umbigo. Refiro-me aos seres de todo mundo, que escorregam no desvalor da vida, exasperando ambições e sonhos individuais, numa guerra interpessoal alimentada por elementos mesquinhos cada dia mais perversos.

A tragédia na Escola Pública de Realengo infelizmente não será considerada como um alerta sobre os descaminhos de um mundo impregnado de sentimentos menores, de desejos insaciáveis, de sonhos de consumo doentios.

É da índole dos senhores dos cérebros buscar tirar proveito das tragédias humanas, pois é nessa hora que a mentira cai como uma luva, incorporando-se mansamente ao imaginário coletivo.

Mesmo que amanhã seja oficialmente proclamada a óbvia inexistência de vínculos entre o gesto tresloucado do jovem evangélico e o Alcorão, a massa já está embriagada pela primeira versão, disseminada repetidas vezes pela mídia num contexto de permanente massacre midiático: os muçulmanos vão penar como bodes expiatórios, com gente torcendo para que padeçam sofrimento semelhante aos das famílias dos 12 meninos de Realengo. Manifestações de intolerância em relação a eles já estão acontecendo, como o diabo gosta. 

Fanatismo

[...] religioso, mal do mundo

O fanatismo religioso segue sendo o principal responsável pelas atrocidades cometidas no mundo. Já foi assim com o 11 de setembro nos EUA e foi da mesma forma nesta sexta-feira no Afeganistão. Assim como também o foi a 20 de março, quando o pastor protestante Wayne Sapp queimou um exemplar do Corão em uma igreja da Flórida. Foi o ato radical do pastor americano que levou a massa ignara da cidade de Mazara-I-Sharif, no Afeganistão, a atacar a representação da ONU e matar oito funcionários da organização. Sendo dois decapitados, segundo as informações. Ato inconcebível. Os funcionários da ONU estão lá para tentar ajudar o país e acabam sendo agredidos de forma covarde. O episódio é a prova maior de que não há o mínimo controle por parte das forças de segurança. Dizia-se que o Afeganistão sob o domínio do Talibã vivia nas trevas. Percebe-se que não é preciso o nefasto regime estar no poder para a população mostrar que ainda vive na Idade Média.
No Iraque, onde a representação da ONU também foi para os ares, vitimando o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, não passa uma semana sem que aconteça um atentado que mata 40 ou 50 pessoas. Brigas entre xiitas e sunitas. Com as guerras nesses dois países - Iraque e Afeganistão -, os EUA já gastaram 1 trilhão de dólares. E o resultado é este que se vê. Vão ter que deixar aqueles países sem ter conseguido estruturar segurança para os governos aliados que deixam no poder. Ou melhor, deixam no cargo, porque o poder eles não detêm.
MUDANÇA NA LÍBIA
Os EUA tiraram o corpo fora e passaram para a responsabilidade da Otan o comando das ações na Líbia. Na prática, não muda muito, porque os comandos e os maiores contingentes da organização, tanto em termos bélicos quanto humanos, são americanos. Então, serão esses que continuarão a desenvolver as ações, só que, não em nome dos EUA, mas da Aliança Atlântica. Envolto na contradição de ser o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2009 e de ter autorizado uma nova guerra, o presidente Barack Obama foi à televisão para dizer que as forças americanas ajudaram a salvar vidas de civis do Leste da Líbia que iriam morrer em função dos ataques das forças de Kadhafi. É verdade, mas, em compensação, conforme denunciou a Igreja Católica em Trípoli, estão ajudando a matar os civis do Oeste, que são atacados pelas forças que são contra Kadhafi. Assim como também morrem civis nos bombardeios feitos contra aviões e tanques líbios. Embora o alvo seja militar, é muito difícil realizar um ataque sem efeito colateral.
Outro problema que desponta é saber quem irá governar a Líbia, após o afastamento de Kadhafi. Obama diz que os árabes devem seguir os exemplos de Brasil e Chile, que saíram de ditaduras para a democracia. A diferença é que brasileiros e chilenos já conheciam a democracia antes e trataram de reconquistá-la. Os árabes nunca conheceram democracia. A composição de seus países, de um modo geral, é feita por tribos ou facções religiosas, que costumam brigar entre si. Para manter a ordem, só um regime de força. Quando tentam impor democracia vira bagunça. Basta ver Iraque. Com a Líbia, possivelmente, não será diferente. Já há especulação de que as tribos vencedoras em Benghazi podem não ser aceitas pelas tribos de Trípoli. Conforme ressaltou o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, as intervenções estrangeiras só tendem a aumentar ainda mais as divisões internas dos países árabes. Assim é que a Líbia poderá ser mais um país que o Ocidente terá que ficar tutelando, como o Iraque e o Afeganistão, a um altíssimo custo, tanto em termos políticos e militares, quanto em vidas humanas.
PREOCUPAÇÃO EM ISRAEL
Israel está acompanhando de perto a crise na Síria e vê com apreensão uma possível queda do presidente Bashar Al-Assad. As autoridades israelenses temem que uma liderança mais conservadora assuma o poder, o que seria um risco para a segurança da fronteira no Norte de Israel. Os dois países, que já se enfrentaram três vezes, vivem uma espécie de guerra fria, já que a Síria mantém uma aliança com o Irã, e apoia o grupo Hezbollaz no Líbano. Da mesma forma, há grande preocupação com quem irá assumir o governo no Egito. Pois pode surgir um apoio maior para o grupo radical palestino Hamas. São as pedras do dominó do Oriente Médio que seguem balançando.